Jorge Viana tenta reconstruir memória política do Acre — mas o passado também deixou obras, promessas e contradições

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Jorge Viana tenta reconstruir memória política do Acre — mas o passado também deixou obras, promessas e contradições

Ex-governador critica crise atual do Acre, mas discurso reacende debate sobre projetos, obras e promessas acumuladas durante os governos petistas.

Por Eliton Lobato Muniz — Cidade AC News
📍 Rio Branco (AC) — 09 de maio de 2026

Jorge Viana Acre reapareceu recentemente como quem tenta reconstruir uma memória política seletiva do estado.

Na entrevista concedida ao portal 3 de Julho Notícias, o ex-governador falou sobre perda de protagonismo, crise de liderança, hipocrisia política e degradação institucional.

O discurso é sofisticado.

O problema é que ele parece partir da ideia de que os quase 20 anos de governos petistas no Acre foram uma travessia organizada, limpa e sem contradições profundas.

E não foram.

⚠️ O ACRE NÃO COMEÇOU SEUS PROBLEMAS AGORA

A atual crise política e estrutural do estado não nasceu apenas nos governos recentes. Muitos projetos controversos, obras incompletas e promessas grandiosas atravessaram também o período petista.

Muitos dos chamados “elefantes brancos”, projetos milionários mal explicados e obras vendidas como símbolos de redenção coletiva nasceram justamente naquele período que hoje parte da esquerda tenta reapresentar como uma espécie de era dourada da política acreana.

Basta olhar alguns retratos esquecidos desse tempo.

  • A Escola Maria Moreira, apresentada como símbolo estratégico de formação em saúde;
  • A Natex, vendida como revolução industrial amazônica;
  • A ZPE do Acre, anunciada durante anos como portal definitivo da exportação acreana;
  • O projeto Peixes da Amazônia, cercado por expectativas bilionárias e perguntas nunca completamente encerradas;
  • E as Ruas do Povo, que até hoje convivem com críticas, desgaste e questionamentos.

Tudo isso faz parte do mesmo Acre.

Do Acre real.

Não do Acre publicitário.

Existe diferença entre protagonismo político e protagonismo narrativo

É importante reconhecer uma coisa:

o PT acreano soube construir narrativa nacional.

Soube ocupar espaços ambientais, internacionais e institucionais.

Soube dialogar com Brasília.

Soube construir imagem.

E isso produziu projeção política real para o Acre durante determinados períodos.

Mas existe um ponto central que o discurso atual tenta suavizar:

narrativa não resolve todas as consequências da realidade.

Porque enquanto o discurso falava sobre desenvolvimento sustentável, modernização e novo modelo amazônico, muitos problemas estruturais continuavam sendo empurrados de governo para governo.

E vários deles permanecem até hoje.

🧠 LEITURA DE PODER

A fala de Jorge Viana tenta reorganizar emocionalmente a memória política do Acre. O objetivo não é apenas criticar o presente, mas reconstruir comparação favorável ao passado.

O problema da entrevista não está exatamente na crítica ao presente.

Parte dela faz sentido.

O Acre realmente perdeu força institucional em diversos aspectos.

Existe desgaste político.

Existe radicalização.

Existe empobrecimento do debate público.

Existe crise de representação.

Mas existe também outro problema:

a tentativa constante de transformar o passado em propaganda emocional.

A política acreana vive presa entre duas propagandas

Talvez esse seja o ponto mais importante dessa discussão.

O Acre parece viver preso entre duas versões simplificadas da própria história.

De um lado:

a propaganda de que o passado foi perfeito.

Do outro:

a propaganda de que todos os problemas começaram agora.

Nenhuma das duas resiste completamente à realidade.

Porque o Acre possui problemas históricos.

Estruturais.

Acumulados.

Problemas logísticos.

Dependência econômica.

Industrialização incompleta.

Obras maiores no discurso do que na execução.

Planejamento interrompido.

Projetos descontinuados.

Concentração de poder político em grupos sucessivos.

E isso atravessa governos.

Inclusive os governos petistas.

📉 MEMÓRIA SELETIVA TAMBÉM É PODER

Na política, a disputa não acontece apenas sobre o presente. Ela acontece também sobre quem controla a narrativa do passado e quais lembranças serão preservadas ou esquecidas.

Quando Jorge Viana fala em hipocrisia política, talvez sem perceber, acaba tocando também numa ferida que alcança o próprio grupo político que governou o Acre durante quase duas décadas.

Porque hipocrisia também é fingir que os problemas nasceram apenas no adversário.

Hipocrisia também é falar como se o Acre tivesse saído de um paraíso administrativo direto para o caos absoluto.

Não saiu.

O Acre vem carregando há décadas promessas monumentais, projetos interrompidos, discursos grandiosos e uma população cansada de ouvir que “agora vai”.

No final, o problema é memória seletiva

Talvez o maior problema político do Acre hoje seja exatamente esse:

cada grupo tenta vender a reconstrução de uma esperança…

sem antes prestar contas completas da esperança anterior que também prometeu salvar o estado.

E talvez seja justamente isso que explique parte do desgaste emocional da população acreana com a política.

As promessas mudam.

Os discursos mudam.

Os grupos mudam.

Mas o sentimento coletivo de frustração continua atravessando décadas.

No final…

não é apenas sobre direita, esquerda, PT ou anti-PT.

É sobre memória seletiva.

E memória seletiva, na política, quase sempre vira ferramenta de poder.

O Acre não vive apenas uma disputa eleitoral.
Vive uma disputa sobre qual versão do passado a população ainda está disposta a acreditar.

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