- 📌 Tião Viana e Peixes da Amazônia: o complexo mudou de dono, mas ele afirma que continua ajudando
- ↳ A Peixes da Amazônia não foi recuperada como empresa
- ↳ OZ Earth arrematou os ativos por R$ 13,151 milhões
- ↳ Em 2015, o complexo foi apresentado como vitrine internacional
- ↳ R$ 120 milhões não podem ser comparados diretamente com R$ 13,151 milhões
- ↳ A pista pública: Tião já declarou que procurava parceiros
- ↳ Que tipo de ajuda pode existir?
- ↳ A investigação do MPAC trata do programa original
- ↳ Da pedra fundamental ao novo arremate
- ↳ Dez perguntas que precisam ser respondidas
- ↳ O que a declaração realmente revela
- ↳ Posição dos envolvidos
- ↳ Centro de Evidências
- ↳ Perguntas frequentes
Tião Viana e Peixes da Amazônia: o complexo mudou de dono, mas ele afirma que continua ajudando
Tião Viana e Peixes da Amazônia voltaram ao centro do debate depois que o ex-governador afirmou que continua ajudando no “resgate” do empreendimento. A declaração indica uma atuação no presente, mas deixa sem resposta uma pergunta elementar: o que Tião ainda ajuda a resgatar depois que os ativos do complexo foram arrematados por outro grupo?
A fala foi feita durante o Papo Informal #164, apresentado pelo jornalista Luciano Tavares e com a participação de Leonildo Rosas. Ao tratar da industrialização e do futuro econômico do Acre, Tião declarou:
“Continuo ajudando, inclusive com o resgate da Peixes da Amazônia.”
A palavra “continuo” é o centro da notícia. Ela mostra que a ligação entre Tião Viana e Peixes da Amazônia não ficou restrita aos dois mandatos do petista no governo do Acre.
Em uma frase: Tião já declarou que procurava parceiros para o projeto, mas ainda não informou se sua atuação terminou no leilão ou prossegue junto à nova operação privada.
A Peixes da Amazônia não foi recuperada como empresa
Para compreender a declaração, é necessário separar três elementos que aparecem misturados no debate público: a empresa, os ativos industriais e o projeto econômico.
A Peixes da Amazônia S.A. teve a falência decretada pela Justiça acreana em novembro de 2024. Segundo o Tribunal de Justiça do Acre, a empresa descumpriu o plano de recuperação judicial, deixou de pagar credores e não arcou nem mesmo com os honorários do administrador judicial.
A decisão também registrou que as instalações estavam em estado de abandono e já haviam sido alvo de furtos. Com a decretação da falência, a Justiça determinou a lacração dos estabelecimentos, a arrecadação dos bens e a preparação de um plano para a venda dos ativos.
Em agosto de 2025, a Vara Cível de Senador Guiomard publicou o edital de alienação judicial. A ordem era vender, em bloco único, a totalidade do complexo industrial e dos demais bens reunidos pela massa falida.
O conjunto incluía uma área de 65,09 hectares, bloco administrativo, fábrica de ração, subestação de energia, frigorífico, laboratório de alevinagem, estação de tratamento de água, tanques de piscicultura, máquinas, equipamentos, móveis e utensílios.
A avaliação judicial dos bens móveis e imóveis chegou a R$ 19.001.914,85.
O TON explica: comprar os ativos de uma empresa falida não significa recuperar automaticamente a antiga pessoa jurídica. O comprador adquire os bens definidos no leilão. A empresa falida continua submetida ao processo judicial, enquanto o arrematante precisa estruturar uma nova operação.
OZ Earth arrematou os ativos por R$ 13,151 milhões
Depois de dois ciclos de leilões, os ativos foram arrematados pela OZ Earth Participações S.A. por R$ 13.151.000,00. A disputa teria reunido 74 lances na última praça.
O arremate apresentado à Justiça estabeleceu uma entrada equivalente a 50% do valor, correspondente a R$ 6.575.500,00. O restante foi dividido em 24 parcelas mensais, corrigidas pelo IPCA.
O pagamento parcelado está sujeito às condições do processo judicial. Segundo a decisão noticiada após o arremate, eventual inadimplência pode provocar a resolução da compra, a perda dos valores pagos e o retorno dos bens para novo leilão.
Essa mudança patrimonial altera o significado da declaração de Tião. Ele não pode estar juridicamente “salvando” a antiga empresa sem explicar o que chama de resgate. O que pode existir é uma atuação voltada à reativação do parque industrial e à reconstrução da cadeia produtiva.
Em 2015, o complexo foi apresentado como vitrine internacional
A história de Tião Viana e Peixes da Amazônia ajuda a compreender por que o ex-governador continua publicamente ligado ao projeto. O complexo não foi apresentado apenas como uma empresa local. Tornou-se uma vitrine política, econômica e diplomática de seu governo.
Em 7 de maio de 2015, o então presidente da Bolívia, Evo Morales, esteve no Acre para conhecer a estrutura. A comitiva boliviana incluía ministras, técnicos ministeriais e integrantes do corpo diplomático.
A agenda reuniu ainda o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o então governador do Piauí, Wellington Dias, o senador Jorge Viana e outras autoridades. O objetivo anunciado era apresentar o modelo de integração entre piscicultores, cooperativas, fábrica de ração, produção de alevinos, frigorífico e mercado consumidor.
Naquele período, o discurso oficial informava que a parceria público-privado-comunitária reunia investimentos superiores a R$ 120 milhões. Também anunciava a possibilidade de 400 empregos diretos e uma produção anual de 23 mil toneladas de pescado.
Tião projetava uma etapa ainda maior: alcançar 100 mil toneladas anuais e gerar movimentação econômica superior a R$ 1 bilhão por ano.
Esses números precisam ser tratados como investimentos, metas e projeções divulgadas pelo governo em 2015. Não podem ser apresentados como resultados efetivamente alcançados sem balanços de produção, emprego, faturamento e execução financeira que os comprovem.
A própria comunicação oficial registrou que Lula participou da mediação de diálogos com empresas ligadas à implantação do empreendimento. Evo Morales, por sua vez, conheceu o complexo como possível referência para projetos semelhantes na Bolívia.
O TON explica: a presença de Lula e Evo Morales não comprova que o projeto tenha sido economicamente bem-sucedido. Ela comprova o tamanho da autoridade política empregada para legitimá-lo. A Peixes da Amazônia foi apresentada como modelo para o Acre, para outros estados e até para outro país.
A falência, portanto, não encerrou apenas uma empresa. Atingiu uma das principais promessas econômicas do governo Tião Viana. Quando o ex-governador fala em “resgate”, pode estar tentando preservar também o significado político de uma obra que apresentou como parte de seu legado.
R$ 120 milhões não podem ser comparados diretamente com R$ 13,151 milhões
Os dois valores possuem naturezas diferentes.
- Os R$ 120 milhões correspondiam ao investimento global divulgado em 2015 para o empreendimento e para a cadeia de piscicultura;
- os R$ 19 milhões correspondem à avaliação judicial dos bens móveis e imóveis reunidos no leilão;
- os R$ 13,151 milhões correspondem ao lance vencedor pelos ativos remanescentes da massa falida.
Não é tecnicamente correto afirmar que R$ 120 milhões “viraram” R$ 13,151 milhões. A diferença isolada não comprova desvio, superfaturamento ou perda integral dos recursos investidos.
Também não seria correto utilizar o valor do arremate como medida automática de todo o patrimônio econômico que existiu ao redor do projeto. A cadeia incluía tanques instalados em propriedades, produtores, contratos, custeio, assistência, infraestrutura e outros investimentos que não necessariamente estavam dentro do bloco judicial vendido.
O contraste legítimo é outro: um empreendimento anunciado como modelo internacional, cercado de altas expectativas e participação pública e privada, terminou em falência e teve seus ativos vendidos por um valor inferior à avaliação judicial.
A pista pública: Tião já declarou que procurava parceiros
A ligação entre Tião Viana e Peixes da Amazônia não reapareceu somente na entrevista ao Papo Informal.
Depois do leilão, em dezembro de 2025, o ex-governador publicou uma defesa do projeto. Disse que havia continuado procurando parceiros interessados na proposta ao lado de Fábio Vaz.
Tião também comemorou a vitória da OZ Earth no leilão e agradeceu a pessoas que, segundo ele, colaboraram com o processo. Essa manifestação oferece uma informação concreta: o ex-governador participou da busca de interessados para o empreendimento.
O que ainda não está esclarecido é a natureza de sua atuação depois do arremate. Nas fontes públicas consultadas, não foi localizada informação capaz de confirmar se Tião:
- mantém interlocução formal com a OZ Earth;
- presta consultoria remunerada ou voluntária;
- possui cargo ou participação na nova operação;
- recebeu procuração para representar a empresa;
- articula produtores, fornecedores, compradores ou investidores;
- atua na busca de licenças, crédito ou incentivos públicos;
- participa apenas como defensor político do projeto criado durante seu governo.
Nenhuma dessas possibilidades deve ser publicada como fato sem documento ou resposta dos envolvidos. O que está confirmado é mais limitado: Tião afirma que continua ajudando, mas ainda não definiu os limites dessa ajuda.
Que tipo de ajuda pode existir?
Um ex-governador pode colaborar com um projeto privado sem ser sócio ou funcionário. Essa colaboração pode ocorrer por meio da apresentação do potencial econômico do complexo, da aproximação de investidores, do diálogo com produtores ou da abertura de interlocução com instituições.
Também pode envolver conhecimento acumulado sobre a estrutura, reconstrução da cadeia de fornecedores, busca de mercados ou defesa pública da retomada.
Essas são possibilidades gerais. Não constituem prova sobre a atuação de Tião. A reportagem não encontrou, até o momento, contrato, cargo, participação societária ou remuneração atribuída ao ex-governador na nova operação.
O Ponto Cego: a pergunta não é se Tião pode apoiar a retomada. A pergunta é por que uma participação atual, afirmada pelo próprio ex-governador, ainda não foi apresentada com função, limites e interessados claramente identificados.
A investigação do MPAC trata do programa original
Outro fato exige separação rigorosa. Em julho de 2026, o Conselho Superior do Ministério Público do Acre não homologou o arquivamento do inquérito civil sobre o Programa Peixes da Amazônia e determinou o prosseguimento da investigação.
A Resolução nº 4.278/2026 registra que o Relatório de Análise Técnica nº 482/2025 identificou indícios de superfaturamento por quantidade, despesas sem cobertura contratual, ausência de comprovação da contrapartida privada, fragilidades de controle administrativo e potencial prejuízo ao erário estimado em aproximadamente R$ 70 milhões.
O mesmo documento informa que ainda não existem elementos suficientes para a confirmação definitiva do superfaturamento. O Conselho entendeu que essa insuficiência não justificava o arquivamento e que novas diligências deveriam ser realizadas.
Portanto, o MPAC não declarou culpados nem confirmou definitivamente um prejuízo de R$ 70 milhões. A decisão foi continuar investigando possíveis irregularidades na execução histórica das contratações públicas e na destinação dos recursos do programa original.
Não há, nas fontes consultadas, indicação de que a OZ Earth ou a atuação atual mencionada por Tião estejam sendo investigadas nesse procedimento.
Associar automaticamente a nova compradora aos fatos históricos criaria uma suspeita sem base documental. Separar os dois momentos, porém, não elimina a necessidade de explicar qual é o papel atual de Tião.
O Acre por Dentro: a retomada não depende apenas de reabrir galpões. O complexo precisa de produtores, alevinos, ração, escala, crédito, transporte, compradores, licenciamento e governança. Sem reconstruir essa cadeia, o parque industrial pode voltar a funcionar fisicamente sem recuperar a função econômica prometida ao Acre.
Da pedra fundamental ao novo arremate
| Data | O que aconteceu |
|---|---|
| Junho de 2011 | O governo lançou a pedra fundamental e anunciou investimento inicial de aproximadamente R$ 53 milhões. |
| Maio de 2015 | O complexo foi apresentado a Lula, Evo Morales, Wellington Dias e outras autoridades como referência de industrialização e piscicultura. |
| Novembro de 2024 | A Justiça decretou a falência da Peixes da Amazônia S.A. por descumprimento do plano de recuperação judicial. |
| Agosto de 2025 | O TJAC anunciou a venda judicial em bloco dos ativos avaliados em aproximadamente R$ 19 milhões. |
| Novembro de 2025 | A OZ Earth arrematou os ativos do complexo por R$ 13,151 milhões. |
| Julho de 2026 | O MPAC determinou o prosseguimento da investigação sobre o programa original, e Tião afirmou que continua ajudando no “resgate”. |
Dez perguntas que precisam ser respondidas
- Qual é exatamente o papel de Tião Viana na retomada do complexo?
- A atuação ocorre em nome próprio ou a pedido da OZ Earth?
- Existe contrato, remuneração, cargo, procuração ou participação societária?
- Tião participou da aproximação entre a OZ Earth e o empreendimento?
- A participação do ex-governador continuou depois do arremate judicial?
- Quais produtores, investidores ou instituições participam da reconstrução da cadeia?
- A nova operação pretende buscar financiamento ou incentivo público?
- Qual será a identidade jurídica e comercial do novo negócio?
- Quando o complexo poderá voltar a produzir?
- Como a nova operação será separada da massa falida e das pendências da antiga empresa?
As perguntas não servem para criminalizar uma articulação econômica. Servem para estabelecer quem faz o quê em torno de uma estrutura construída com participação pública e privada e posteriormente adquirida em processo judicial.
O que a declaração realmente revela
A entrevista não prova que Tião tenha contrato com a OZ Earth. Também não comprova cargo, remuneração ou participação societária.
Ela prova algo mais limitado e, ainda assim, relevante: o ex-governador afirma que continua ajudando.
Enquanto essa ajuda não for descrita, Tião Viana e Peixes da Amazônia permanecerão ligados por duas histórias incompletas. De um lado, o legado político de um empreendimento apresentado como símbolo de industrialização. Do outro, um complexo falido que mudou de dono e precisa ser reconstruído sob nova governança.
A transparência começa quando a palavra “resgate” passa a ter função, responsabilidade e limites definidos — ou quando os envolvidos confirmam publicamente que não existe qualquer vínculo formal.
Posição dos envolvidos
Nas manifestações públicas consultadas, não foi localizada explicação específica de Tião Viana ou da OZ Earth sobre eventual função exercida pelo ex-governador depois do arremate.
O Cidade AC News mantém espaço aberto para os esclarecimentos dos envolvidos. A matéria será atualizada caso sejam apresentadas respostas, contratos, documentos ou informações capazes de definir a natureza da atuação mencionada por Tião.
A empresa faliu, os ativos mudaram de dono e Tião afirma que continua ajudando. O que falta saber é em qual posição.
Centro de Evidências
- Papo Informal #164 — declaração de Tião sobre o “resgate”
- TJAC — falência da Peixes da Amazônia S.A.
- TJAC — edital de alienação judicial dos ativos
- ContilNet — OZ Earth e valor do arremate
- AC24Agro — condições de pagamento do arremate
- Notícias da Hora — manifestação de Tião após o leilão
- Agência de Notícias do Acre — lançamento do complexo em 2011
- Agência de Notícias do Acre — visita de Lula e Evo Morales em 2015
- A Gazeta do Acre — comitiva de Evo Morales
- MPAC — Resolução nº 4.278/2026
Perguntas frequentes
1. A Peixes da Amazônia voltou a funcionar?
As fontes consultadas informam a intenção de reativar o complexo, mas não confirmam a retomada integral da produção.
2. A OZ Earth comprou a antiga empresa?
A OZ Earth arrematou os ativos reunidos no leilão da massa falida. Isso não equivale automaticamente a recuperar a antiga pessoa jurídica ou assumir todas as obrigações da empresa falida.
3. Quanto a OZ Earth pagou pelo complexo?
O lance vencedor foi de R$ 13.151.000,00. Os ativos haviam sido avaliados judicialmente em R$ 19.001.914,85.
4. Qual é a relação entre Tião Viana e Peixes da Amazônia atualmente?
Tião afirmou que continua ajudando no “resgate”, mas ainda não explicou se possui função formal, contrato ou atuação apenas política e institucional.
5. Tião Viana trabalha para a OZ Earth?
Não foi localizada comprovação pública de contrato, emprego, cargo ou participação societária. A questão precisa ser esclarecida pelo ex-governador e pela empresa.
6. A OZ Earth está sendo investigada pelo MPAC?
Não há essa indicação nas fontes citadas. O inquérito mencionado pelo MPAC examina possíveis irregularidades históricas na execução do programa original.
7. O MPAC confirmou prejuízo de R$ 70 milhões?
Não. O documento menciona potencial prejuízo estimado e indícios que exigem investigação complementar. Não existe condenação definitiva apresentada na resolução.
8. Os R$ 120 milhões investidos viraram R$ 13,151 milhões?
Essa comparação direta é incorreta. O primeiro valor se refere ao investimento global divulgado para o empreendimento e a cadeia produtiva. O segundo corresponde ao lance judicial pelos ativos remanescentes.
Por Eliton L. Muniz — O Ton da Conversa
Rio Branco (AC), 30 de julho de 2026.
Imagem G1 – Globo
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