Depois de duas mortes no Instituto São José e de novos episódios de violência no ambiente escolar, uma pergunta exige resposta concreta: o que efetivamente mudou na segurança das escolas do Acre?
Direto da Redação — Eliton Muniz
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Eu vou fazer uma pergunta incômoda: o que precisa acontecer para tratarmos a segurança das nossas escolas como prioridade permanente?
Precisamos esperar outra morte?
Outra ligação desesperada?
Outro pai ou outra mãe correndo para uma escola sem saber se o filho está vivo, ferido ou protegido?
Eu sou jornalista há muitos anos. Já acompanhei violência, acidentes, mortes e tragédias. Mas existe uma diferença brutal quando você deixa de olhar para uma ocorrência apenas como jornalista e passa a enxergá-la como pai.
Eu tenho filhas dentro de uma escola.
E hoje existe uma pergunta que me acompanha quando o portão fecha:
Elas estão realmente seguras lá dentro?
O dia 5 de maio não pode virar apenas uma data
No dia 5 de maio de 2026, Rio Branco viveu uma tragédia dentro do Instituto São José. Um estudante de 13 anos entrou armado na unidade e fez disparos. As servidoras Alzenir Pereira da Silva e Raquel Sales Feitosa morreram. Outras duas pessoas ficaram feridas.
Duas profissionais perderam a vida dentro de um ambiente que deveria existir para ensinar, proteger e preparar crianças e adolescentes para o futuro.
Pouco mais de quatro meses depois, outro episódio de violência atingiu uma escola da capital. Em 9 de setembro, uma ocorrência na Escola Estadual Raimundo Hermínio de Melo terminou com duas professoras agredidas. As circunstâncias são diferentes das do Instituto São José, e as responsabilidades precisam ser apuradas individualmente.
É importante fazer essa separação.
Mas também é necessário fazer outra pergunta:
o que aprendemos desde 5 de maio?
Porque tragédia não pode produzir apenas nota de pesar.
Precisa produzir aprendizado.
Precisa produzir protocolo.
Precisa produzir prevenção.
Precisa produzir mudança.
Eu comecei a olhar para o portão da escola de outro jeito
Talvez seja isso que mais me incomode.
Como pai, comecei a prestar atenção em coisas que antes faziam parte da paisagem.
A altura do muro.
O portão.
Quem entra.
Quem identifica.
Quem acompanha uma pessoa até determinado setor.
Quem pode circular pela escola.
O que acontece quando alguém chega alterado.
Quem toma a primeira decisão diante de uma ameaça.
Quanto tempo leva para a ajuda chegar.
E o que professores, servidores e gestores devem fazer nos primeiros minutos de uma situação grave.
Não quero transformar escola em presídio.
Não quero crianças estudando atrás de uma fortaleza.
Quero exatamente o contrário.
Quero que a escola continue sendo escola.
Mas, para isso, preciso confiar que existe uma estrutura de prevenção capaz de reduzir riscos e reagir quando alguma coisa foge do normal.
O telefone toca. E um pai pensa no pior
Existe uma sensação que talvez seja difícil explicar para quem não tem filho dentro de uma escola.
O telefone toca em um horário em que normalmente a escola não ligaria.
Por alguns segundos, o pensamento dispara.
Aconteceu alguma coisa com minha filha?
Isso me incomoda profundamente.
Não quero normalizar esse medo.
Não quero acreditar que faz parte da vida de um pai deixar a filha na escola e passar algumas horas esperando que nada aconteça.
Escola não pode ser um lugar no qual a família apenas torce para que tudo termine bem.
Segurança precisa ser construída antes do problema.
Então eu quero saber: o que mudou?
Depois do Instituto São José, quais medidas concretas foram adotadas?
Quantas escolas tiveram suas condições de segurança avaliadas?
Quais vulnerabilidades foram identificadas?
Quantas foram corrigidas?
O controle de acesso mudou?
Existem procedimentos para identificar visitantes?
Há protocolos claros para situações de ameaça, agressão ou entrada irregular?
Professores, servidores, vigilantes e gestores receberam treinamento?
Existe comunicação rápida com as famílias em uma emergência?
Educação e Segurança Pública possuem protocolos integrados?
Quem acompanha situações previamente identificadas como potencialmente perigosas?
E, principalmente:
se alguma coisa acontecer amanhã, quem faz o quê nos primeiros cinco minutos?
Eu não quero uma resposta burocrática dizendo apenas que “providências estão sendo tomadas”.
Quero saber quais providências.
Quero números.
Quero protocolos.
Quero prazos.
Quero saber o que já foi feito, o que ainda está sendo executado e o que falta fazer.
Segurança não começa quando a polícia chega
Esse talvez seja um dos pontos centrais dessa discussão.
A resposta policial é indispensável diante de uma ocorrência grave.
Mas segurança escolar começa muito antes.
Começa no controle de acesso.
Na identificação.
Na prevenção de conflitos.
Na comunicação entre escola e família.
No treinamento das equipes.
Na observação de situações de risco.
Na existência de protocolos conhecidos por quem trabalha na unidade.
Na capacidade de acionar rapidamente os órgãos responsáveis.
E na integração entre Educação, Segurança Pública, famílias e comunidade escolar.
Não existe risco zero.
Nenhum governo, escola ou sistema sério poderia prometer isso.
Mas existe diferença entre risco impossível de eliminar e vulnerabilidade que poderia ter sido reduzida.
É justamente essa diferença que precisamos conhecer.
Alzenir e Raquel precisam significar mais do que uma lembrança
Eu não quero que o tempo transforme Alzenir Pereira da Silva e Raquel Sales Feitosa apenas em dois nomes de uma notícia antiga.
O que aconteceu no Instituto São José precisa continuar incomodando.
Não para alimentar medo.
Não para explorar uma tragédia.
Mas para impedir que a memória seja substituída pela rotina.
Depois de uma tragédia dessa dimensão, a sociedade tem o direito de saber o que o poder público aprendeu, o que corrigiu e quais vulnerabilidades ainda permanecem.
Porque dizer “isso não pode acontecer novamente” é fácil.
A questão verdadeira é:
o que estamos fazendo hoje para reduzir a possibilidade de acontecer novamente?
Não estou anunciando outra tragédia
Também preciso deixar isso muito claro.
Não estou dizendo que uma nova tragédia acontecerá.
Não estou dizendo que todas as escolas são inseguras.
Não estou criando uma sentença antecipada contra gestores, professores ou servidores que diariamente trabalham dentro dessas unidades.
Seria irresponsável fazer isso.
Minha cobrança é justamente outra:
não podemos esperar uma nova tragédia para descobrir aquilo que poderia ter sido corrigido antes.
Prevenção existe para agir antes.
Protocolo existe para funcionar antes.
Treinamento existe para preparar antes.
Segurança existe para reduzir o risco antes.
E se fosse amanhã?
Essa é a pergunta mais difícil que consigo fazer.
Se amanhã acontecer uma situação grave dentro de uma escola do Acre, poderemos olhar para os pais e dizer que tudo aquilo que razoavelmente poderia ter sido feito foi feito?
Os protocolos estavam atualizados?
Os profissionais estavam preparados?
As vulnerabilidades conhecidas haviam sido corrigidas?
Os acessos estavam sendo controlados?
Os órgãos responsáveis estavam integrados?
Essa resposta não pode aparecer somente depois de uma ocorrência.
Ela precisa existir hoje.
Antes de jornalista, eu sou pai
Como jornalista, vou continuar procurando documentos, cobrando informações e fazendo perguntas.
Quero saber quais medidas foram adotadas depois de 5 de maio e quais ainda precisam ser executadas.
Mas existe outra parte dessa história que nenhuma função profissional consegue esconder.
Eu sou pai.
E quero fazer aquilo que milhões de pais fazem todos os dias: levar minhas filhas para a escola, dar um abraço, vê-las entrando pelo portão e seguir para o trabalho.
Sem imaginar uma tragédia.
Sem olhar assustado para o telefone.
Sem calcular a altura do muro.
Sem me perguntar quem consegue entrar.
Sem pensar no pior.
Não quero viver com medo.
Quero confiança.
Porque educação pressupõe confiança.
E existe algo profundamente perturbador quando um pai deixa a filha na escola, vê o portão se fechar e leva consigo uma pergunta que jamais deveria precisar carregar:
“Minha filha está realmente segura lá dentro?”
Como jornalista, quero respostas.
Como pai, quero algo ainda mais simples:
quero deixar minhas filhas na escola sabendo que tudo o que pode ser razoavelmente feito para protegê-las está sendo feito.
E que, ao final do dia, elas voltarão para casa.
Eliton Muniz
Jornalista e pai



