Enquanto muitos enxergam apenas vendedores ambulantes, engraxates ou trabalhadores de semáforo, milhares de pessoas transformam ruas, calçadas e praças em seus locais de trabalho, renda e sobrevivência.

Aos 41 anos, Elias Nascimento já se acostumou a ouvir negativas quando procura emprego. Com nanismo, ele afirma que as oportunidades formais de trabalho sempre foram escassas. Diante da dificuldade de conseguir uma vaga com carteira assinada, encontrou nas ruas de Rio Branco uma forma de garantir o próprio sustento.
Há cerca de dez anos, trabalha como engraxate. Mas a atividade é apenas uma das várias que desempenha ao longo do dia. Quando surge oportunidade, também lava carros, distribui panfletos, participa de ações promocionais e aceita outros serviços que possam complementar a renda.
“Eu faço o que aparecer. O que surgir para mim eu faço”, resume.
Sem salário fixo e sem garantias, Elias depende diretamente do movimento diário para ganhar dinheiro. Sua rotina começa cedo e termina apenas quando considera que conseguiu arrecadar o suficiente para cobrir as despesas básicas.

A caixa de engraxate, o balde e uma inseparável bicicleta formam as ferramentas de trabalho de Elias. É com esse conjunto que ele percorre estacionamentos, calçadas e áreas movimentadas de Rio Branco em busca de clientes, oferecendo desde o tradicional serviço de engraxate até pequenas atividades que ajudam a complementar a renda.

A história de Elias ajuda a compreender uma realidade que faz parte do cotidiano de milhares de brasileiros. Longe dos escritórios, das indústrias e dos centros comerciais, trabalhadores transformam espaços públicos em locais de trabalho e encontram na economia popular uma alternativa para gerar renda.
Embora muitas vezes não sejam reconhecidos dessa forma, assumem diariamente riscos financeiros, administram custos, lidam com clientes e dependem da própria capacidade de venda para sobreviver.
Na prática, empreendem.
Um negócio que cabe em um carrinho
Nem todos os trabalhadores das ruas desejam exposição.
Durante a produção desta reportagem, um vendedor de picolés aceitou falar sobre sua atividade, mas pediu para não ser identificado. Imagem Ilustrativa.

Picolezeiro / Foto: Kísie Ainoã
A decisão foi respeitada.
Todos os dias, ele compra os produtos diretamente do fornecedor, organiza o armazenamento, calcula os custos e percorre diferentes pontos da cidade em busca de consumidores.
À primeira vista, o trabalho parece simples.
Mas a rotina envolve planejamento e gestão.
Antes mesmo de iniciar as vendas, é necessário definir quantos produtos serão comprados, calcular os gastos e avaliar quais locais oferecem maior potencial de venda.
O lucro depende diretamente da quantidade de picolés comercializados.
O prejuízo também.
Se o movimento é bom, consegue garantir renda para a família.
Quando as vendas ficam abaixo do esperado, o impacto aparece imediatamente no orçamento doméstico.
Mesmo assim, ele afirma que nunca teve interesse em abrir uma loja física.
Para ele, o modelo atual oferece autonomia e atende às necessidades da família.
A rua é o local onde construiu sua clientela e onde encontrou uma forma de gerar renda sem depender de terceiros.
Sua história mostra que o empreendedorismo nem sempre está associado à abertura de grandes empresas ou à criação de estruturas formais de negócio.
Em muitos casos, ele nasce da capacidade de identificar oportunidades e transformá-las em trabalho.
Uma realidade compartilhada por milhares de acreanos
As histórias de Elias e do vendedor de picolés não representam casos isolados.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o Acre possui uma das maiores taxas de informalidade do país.
No quarto trimestre de 2024, 46,8% da população ocupada no estado exercia atividades sem vínculo formal de trabalho.
O índice ficou acima da média nacional e revela a importância da economia popular para a geração de renda no estado.
Entre os trabalhadores incluídos nessa estatística estão vendedores ambulantes, prestadores de serviço, revendedores de alimentos, trabalhadores autônomos e pequenos empreendedores que dependem da própria atividade para garantir sustento.
Em muitos casos, a informalidade não é resultado de uma escolha, mas de uma necessidade.
Onde nasce a renda
Sem oportunidades suficientes no mercado formal, milhares de pessoas criam alternativas para gerar renda e manter suas famílias.
É nesse cenário que histórias como a de Dona Helena ganham significado.
Os segundos que podem definir o dia.
Todos os dias, Dona Helena ocupa um dos cruzamentos mais movimentados de Rio Branco.
O nome é fictício. A identidade foi preservada a pedido da própria trabalhadora.
Há quase nove anos, ela vende produtos nos semáforos da capital. A principal mercadoria são pães adquiridos para revenda.
O funcionamento do negócio é simples.

Ela compra os produtos, organiza a mercadoria e passa horas oferecendo os itens aos motoristas durante o tempo em que o sinal permanece fechado.Se vende, obtém lucro.
Se não vende, assume o prejuízo.
Os riscos fazem parte da atividade.
Quando chove, o movimento costuma diminuir.
Quando o fluxo de veículos é menor, as vendas também caem.
Mesmo assim, os custos permanecem.
“Tem que pagar os pães”, explica.
Ao longo dos anos, ela aprendeu a diversificar os produtos. Além dos pães, já vendeu bandeiras e outros itens que ajudam a complementar a renda.

Segundo Dona Helena, as dificuldades financeiras não são o único desafio enfrentado por quem trabalha nos semáforos.
O preconceito também faz parte da rotina.
“Tem gente que fecha o vidro do carro antes mesmo da gente chegar perto”, relata.
A reação dos motoristas é algo que ela diz presenciar com frequência.
Para quem passa rapidamente pelos cruzamentos, a cena pode durar apenas alguns segundos.
Para quem depende daquele espaço para trabalhar, a sensação permanece.
“É como se a gente fosse invisível.”
A frase resume um sentimento compartilhado por muitos trabalhadores da economia popular.
Embora estejam presentes diariamente nas ruas da cidade, nem sempre são percebidos como profissionais que desenvolvem uma atividade econômica.
O empreendedorismo que passa despercebido

A imagem mais comum associada ao empreendedorismo costuma envolver empresas, escritórios, fachadas comerciais e estruturas formalizadas.
Mas a realidade encontrada nas ruas de Rio Branco mostra outra dimensão desse fenômeno.
Ela está presente no engraxate que percorre estacionamentos em busca de clientes.
No vendedor de picolés que administra sozinho sua atividade.
Na mulher que transforma alguns segundos de sinal vermelho em oportunidade de venda.
Todos administram recursos próprios.
Todos assumem riscos.
Todos dependem da própria capacidade de negociação.
Todos trabalham para gerar renda.
São negócios pequenos, muitas vezes invisíveis para a maior parte da população, mas fundamentais para a sobrevivência de milhares de famílias.
Enquanto motoristas seguem seus trajetos, consumidores realizam compras e a cidade mantém sua rotina, esses trabalhadores continuam ocupando ruas, calçadas, praças e semáforos.
Fazem isso por necessidade, por escolha ou simplesmente porque encontraram nesses espaços a oportunidade que não surgiu em outro lugar.
E mostram, diariamente, que a rua não é apenas um local de passagem.
Para muita gente, ela também é local de trabalho, sustento e empreendedorismo.
Por Francisco Mesquita




