ZPE do Acre: de promessa engavetada a ponte com a Ásia, projeto ganha novo fôlego

Cidade AC News – Adm. Eliton Muniz
⏱️ 5 min de leitura

Criada em 2010 com a missão de impulsionar a economia acreana, a Zona de Processamento de Exportação (ZPE) vive um novo capítulo: agora sob comando chinês, com previsão de inauguração em novembro e conexão com o Porto de Chancay (Peru), o projeto pode finalmente transformar o Acre em elo comercial com a Ásia. Idealizada por Jorge Viana e resgatada no atual cenário diplomático, a ZPE volta ao radar como peça-chave do desenvolvimento regional.

ZPE do Acre: quando o sapato é caro, mal feito e ninguém cobra a nota

Criada como promessa de desenvolvimento, a Zona de Processamento de Exportação do Acre passou mais de uma década abandonada, acumulando gastos públicos sem retorno, estruturas ociosas e promessas não entregues. Foi o que se pode chamar, sem exagero, de um sapato feito sob medida para um pé que nunca usou.

A analogia é inevitável: a ZPE foi um projeto encomendado com base em modelos de estados industrializados, pensado para realidades tributárias e produtivas que o Acre ainda não possuía. O sapato, bonito na prateleira e vendido como solução mágica, era caro, rígido e inútil para quem precisava caminhar. E pior: foi pago com dinheiro público.

Quando tudo falha, até a omissão vira projeto

Entre 2010 e 2021, o Acre viveu uma sequência de gestões que falharam redondamente com a ZPE. O projeto foi criado durante o governo Binho Marques, sucessor de Jorge Viana, e seguiu com Tião Viana, ambos do PT. Depois passou por Gladson Cameli, que optou pelo leilão.

Foram três gestões consecutivas, cada uma com sua dose de omissão, ineficiência ou desinteresse. O que era para ser uma estrutura estratégica se tornou um cemitério de placas, alambrados e relatórios não lidos.

E é aqui que entra o chamado “trio maravilha”: Tribunal de Contas, Controladoria-Geral e Ministério Público, que assistiram inertes à sangria de recursos públicos por mais de uma década. Não houve responsabilização técnica, sanções administrativas ou devolução de valores aos cofres públicos.

Onde estava o TCE quando a ZPE foi desalfandegada por falta de pagamento de sistema?

Onde estavam os relatórios de alerta sobre a inoperância da estrutura?

Onde está, até hoje, um parecer com responsabilização dos agentes públicos que aprovaram e geriram esse fracasso institucional por 11 anos?

Lapso temporal e silêncio institucional

Segundo a Constituição Estadual, a omissão em zelar pelo uso eficiente de recursos públicos é passível de sanção por improbidade administrativa. No entanto, nenhuma ação foi proposta, nenhuma prestação de contas foi questionada, nenhuma sindicância promovida.

A comparação com o sapato volta com força: não tentaram mais forçar o mesmo modelo que machucava o pé. Reformaram a sola, ajustaram a forma, costuraram com outro material e, principalmente, buscaram quem realmente soubesse caminhar nesse terreno.

Mas o calo da memória pública precisa ser preservado: quanto se perdeu para, só agora, fazer do projeto algo funcional? Quem responde pela inoperância de uma década?

Leilão e virada: o sapato foi reformado, mas o calo ficou

Em 2021, o governo estadual decidiu leiloar a administração da ZPE. O empreendimento foi arrematado por R$ 25,8 milhões pela China Haiying do Brasil, uma empresa de capital chinês com atuação no setor logístico. Agora, sob nova gestão, a estrutura está sendo reformada, regularizada e adaptada para finalmente operar. A inauguração está prevista para novembro de 2025.

Pela primeira vez, a promessa da ZPE parece sair da ficção para a prática — mas sem que ninguém tenha sido cobrado pelo roteiro anterior.

Entre promessas e ação: quem foi mais assertivo com a ZPE do Acre?

A trajetória da ZPE entre 2010 e 2021 expõe uma sucessão de falhas políticas, técnicas e administrativas. Binho Marques formalizou a criação, mas não estruturou sua operação real. Tião Viana manteve a narrativa, mas permitiu a paralisação completa. Ambos desperdiçaram recursos, tempo e credibilidade.

Já Gladson Cameli, mesmo sem reparar o passado, foi o único a reconhecer o fracasso do modelo estatal, interromper a estagnação e promover o leilão público da administração da ZPE, abrindo caminho para a reativação do projeto.

No fim das contas, foi Cameli quem teve a coragem de tirar o projeto da prateleira, assumir o erro herdado e entregar o volante a quem sabia dirigir.

Isso não o isenta de responsabilidade por não ter cobrado a fatura dos gestores anteriores, mas o coloca como o mais assertivo entre os que governaram o Acre na década da ZPE esquecida.

Novo cenário: a ZPE que tenta, enfim, sair do papel

Com o funcionamento do Porto de Chancay (Peru), a conexão pela Rodovia Interoceânica (BR-317) e o novo escritório da ApexBrasil em Shenzhen, na China, o Acre começa a ser inserido em uma rota comercial concreta com a Ásia.

Jorge Viana, hoje presidente da ApexBrasil e um dos idealizadores do projeto original, declarou:

“O Acre não pode perder novamente essa oportunidade. Temos localização e uma ZPE criada. Está tudo pronto, mas é preciso agir.”

A frase é emblemática — mas também convoca reflexão: se está tudo pronto agora, o que havia antes? E quem errou entre o ‘criado’ e o ‘funcionar’?

A ZPE do Acre pode, sim, ser a virada logística e econômica que o estado precisa. Mas isso não apaga a década de desperdício, omissão e descaso com o dinheiro público. O novo sapato pode agora servir, mas jamais devemos esquecer quem nos vendeu o antigo como se fosse de primeira linha, quando na verdade era duro, mal costurado e caríssimo.

E tão grave quanto um sapato que não serve é um Tribunal que nunca pediu a nota.

 

 

Mais Lidas

Vagas de estágio do CIEE no Acre exigem cadastro atualizado

Estudantes regularmente matriculados podem consultar vagas de estágio do CIEE no Acre. Cada oportunidade possui critérios próprios de curso, cidade, jornada, bolsa e prazo de inscrição.

Estudantes do Acre podem concorrer a vagas de estágio na área administrativa ofertadas pelo CIEE

O Centro de Integração Empresa-Escola- CIEE está com vagas abertas de...

AD Rio Branco reúne mais de 1.500 participantes no 8º Encontro Estadual de Lideranças

A Assembleia de Deus Ministério Rio Branco realizou, entre 23 e 25 de julho, o 8º Encontro Estadual de Lideranças. Segundo a organização, mais de 1.500 participantes estiveram na programação, que terminou com a consagração de mais de cem obreiros.

Alysson Bestene anuncia revitalização do Parque Chico Mendes aos 30 anos, mas custo e cronograma ainda não foram divulgados

A Prefeitura de Rio Branco realizou uma vistoria técnica no Parque Ambiental Chico Mendes em 10 de julho de 2026 e anunciou melhorias no pavimento, na academia ao ar livre e nos brinquedos. O espaço completa 30 anos em 31 de julho e possui 57 hectares de floresta preservada, reunindo lazer, educação ambiental, pesquisa e conservação da fauna e da flora amazônicas. A gestão do prefeito Alysson Bestene também apresentou, em maio, o projeto de um novo mirante com 30 metros de altura, elevador panorâmico e espaço para café ou lanchonete. Apesar dos anúncios, ainda não foram divulgados o orçamento consolidado, a fonte dos recursos, o cronograma, a modalidade de contratação e a data prevista para início e conclusão das intervenções. A reportagem acompanhará a transformação da vistoria e dos projetos anunciados em obras contratadas, executadas e entregues.

Quanto custa preparar a Expoacre 2026? Prefeitura e Governo ainda não detalham o investimento total da operação

A preparação da Expoacre 2026 já mobiliza centenas de trabalhadores, máquinas e estrutura pública em Rio Branco. Embora a dimensão operacional tenha sido divulgada, informações fundamentais sobre o custo total da operação, contratos, origem dos recursos, patrocínios e estimativa oficial de retorno econômico ainda não foram detalhadas pelos órgãos responsáveis. A reportagem reúne as informações confirmadas, identifica os agentes públicos responsáveis e aponta quais dados permanecem pendentes de divulgação.

Últimas Notícias

Categorias populares