Estudo desenvolvido pela FGV para a Embratur projeta impacto de R$ 8,8 bilhões, 73,7 mil postos de trabalho e R$ 928 milhões em tributos; cálculo combina gastos de visitantes e despesas relacionadas à organização do torneio
RIO BRANCO (AC), 17 de setembro de 2026 — A Copa do Mundo Feminina da FIFA de 2027, que será realizada no Brasil entre 24 de junho e 25 de julho, poderá movimentar R$ 8,8 bilhões na economia brasileira, gerar 73,7 mil postos de trabalho, produzir R$ 4,5 bilhões em renda e resultar em R$ 928 milhões em arrecadação tributária. Os números são projeções de estudo desenvolvido pela Fundação Getulio Vargas (FGV) para a Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur) e, portanto, representam impacto econômico estimado — não dinheiro já investido ou receita garantida.
O briefing do Ministério do Esporte encaminhado ao Cidade AC News apresenta os R$ 8,8 bilhões e mais de 73 mil empregos entre os principais impactos esperados do torneio. A apuração complementar permite avançar sobre o número e mostrar de onde vêm os R$ 8,8 bilhões: aproximadamente R$ 4,7 bilhões estão associados à movimentação do público, especialmente turistas brasileiros e estrangeiros, enquanto outros R$ 4,1 bilhões correspondem ao vetor da organização, relacionado aos desembolsos da FIFA e às estruturas operacionais necessárias ao evento.
Essa divisão ajuda a colocar a projeção em perspectiva. O impacto econômico esperado não corresponde a um único investimento do governo, da FIFA ou de empresas privadas. É uma estimativa da atividade econômica que poderá ser desencadeada pela realização da competição.
De onde podem sair os R$ 8,8 bilhões
O primeiro motor é o público.
Torcedores brasileiros e estrangeiros precisam se deslocar, dormir, comer, utilizar transporte, comprar produtos e contratar diferentes tipos de serviços durante o período da competição. Esse fluxo é o componente ao qual o estudo atribui R$ 4,7 bilhões em atividade econômica direta e indireta.
O segundo motor é a própria realização do evento.
A montagem da estrutura necessária para uma Copa do Mundo envolve operações, serviços, fornecedores e outros desembolsos ligados à organização. Para esse componente, o estudo estima aproximadamente R$ 4,1 bilhões.
Somados, os dois vetores chegam aos R$ 8,8 bilhões que passaram a ser apresentados como potencial impacto econômico da Copa Feminina.
Isso significa que a cifra precisa ser lida corretamente: R$ 8,8 bilhões representam uma projeção de movimentação econômica associada ao torneio, e não R$ 8,8 bilhões de lucro, arrecadação pública ou investimento direto.
Estudo projeta 73,7 mil postos de trabalho
O impacto projetado vai além da movimentação financeira.
O levantamento estima 73,7 mil postos de trabalho, além de R$ 4,5 bilhões em geração de renda e R$ 928 milhões em tributos.
A expectativa é que diferentes segmentos da economia sejam alcançados pela circulação de visitantes e pela operação do evento. O briefing do Ministério do Esporte aponta turismo, hotelaria, transporte, comércio, serviços e economia criativa entre os setores que poderão sentir os efeitos da competição.
Há, porém, uma distinção importante: projeção de postos de trabalho não significa necessariamente criação de 73,7 mil empregos permanentes. O indicador divulgado refere-se ao impacto estimado associado à realização do evento, que inclui atividades diretamente e indiretamente movimentadas pela Copa.
Oito cidades receberão os jogos
A Copa será disputada por 32 seleções em oito cidades brasileiras: Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Será a primeira edição da principal competição mundial de seleções femininas realizada na América do Sul.
A FIFA já divulgou o calendário das 64 partidas.
O jogo de abertura será realizado no Maracanã, no Rio de Janeiro, em 24 de junho de 2027. O mesmo estádio receberá a final em 25 de julho. Todas as oito cidades terão pelo menos sete partidas e receberão ao menos um confronto eliminatório.
A distribuição geográfica também ajuda a compreender o mecanismo econômico por trás da projeção da FGV: os gastos relacionados ao evento não ficam concentrados em um único município.
O turismo é uma das peças centrais da conta
A participação dos visitantes na projeção — R$ 4,7 bilhões — mostra por que a Copa deve ser observada também como evento turístico.
Quando um visitante desembarca em uma cidade-sede, o impacto econômico potencial não termina no ingresso do estádio. Passa por passagem aérea ou rodoviária, hospedagem, alimentação, transporte urbano, comércio e atividades de lazer.
É justamente essa cadeia de gastos que ajuda a transformar um evento esportivo em atividade econômica para diferentes setores.
Mas o efeito final dependerá do número efetivo de visitantes, do tempo de permanência, do padrão de consumo e da capacidade das cidades de absorver essa demanda. A projeção econômica, portanto, não deve ser confundida com resultado já contratado.
Copa ganhou uma legislação específica
O Brasil também estabeleceu um marco jurídico próprio para a competição.
A Lei nº 15.421, de 1º de junho de 2026, regulamenta medidas relacionadas à realização da Copa do Mundo Feminina de 2027. O texto trata de temas como organização, segurança pública, exploração comercial, proteção de marcas e responsabilidades institucionais.
A legislação também incorpora objetivos relacionados à promoção da igualdade entre homens e mulheres, combate à discriminação no esporte e construção de legado social, esportivo e financeiro relacionado à competição.
O texto foi sancionado com veto parcial. O projeto que originou a norma concluiu sua tramitação no Congresso e foi convertido na Lei nº 15.421/2026 em junho.
O número econômico não conta toda a história
A dimensão financeira é uma das formas de medir o tamanho da competição, mas não é a única.
O briefing do Ministério do Esporte apresenta a Copa de 2027 também como oportunidade de ampliar a participação feminina no esporte, incentivar a prática esportiva entre crianças e jovens e deixar infraestrutura e políticas públicas que permaneçam depois do torneio.
Essa é justamente uma das questões que só poderá ser medida posteriormente.
O impacto econômico de um evento ocorre principalmente durante sua preparação e realização. O chamado legado, porém, depende do que permanece funcionando depois que estádios esvaziam, turistas retornam para casa e a competição termina.
No caso da Copa Feminina, isso significa observar não apenas receita e empregos, mas a evolução da estrutura do futebol feminino, formação de atletas, utilização das instalações esportivas, público das competições nacionais e oportunidades profissionais para mulheres no esporte.
O que a projeção não permite afirmar
Há uma diferença fundamental entre estimativa e resultado.
Os R$ 8,8 bilhões não podem ser tratados como dinheiro que necessariamente entrará na economia brasileira. Da mesma forma, os 73,7 mil postos de trabalho representam uma projeção associada às condições consideradas pelo estudo.
O resultado real dependerá da execução do torneio e de variáveis como presença de público, chegada de turistas, ocupação hoteleira, despesas da organização e consumo realizado nas cidades-sede.
Essa distinção é particularmente importante porque números bilionários associados a grandes eventos tendem a ganhar vida própria no debate público. O teste efetivo virá depois: comparar as projeções divulgadas antes da Copa com os indicadores econômicos observados durante e após a competição.
Quem movimenta, quem arrecada e quem executa
A estrutura da Copa envolve diferentes agentes.
A FIFA organiza a competição; a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) é definida pela legislação como associação anfitriã; União, estados e municípios participam das atribuições públicas relacionadas à realização do evento; e empresas privadas e trabalhadores integram a cadeia econômica mobilizada pela competição.
Do ponto de vista econômico, os beneficiários potenciais se espalham por setores como hotelaria, alimentação, transporte, comércio e prestação de serviços.
Do ponto de vista público, a projeção de R$ 928 milhões em tributos fornece uma referência sobre a arrecadação associada à atividade econômica estimada.
Isso não elimina, entretanto, outra dimensão que precisa ser acompanhada: os custos, incentivos e benefícios públicos relacionados à organização do torneio. Em setembro, o governo federal informou que ainda discutia com a FIFA questões como política de ingressos e acesso popular, enquanto o debate sobre o evento também envolvia medidas tributárias.
O próximo movimento
Com calendário e cidades-sede definidos e o marco legal já aprovado, a preparação entra progressivamente na fase operacional.
A Copa começa em 24 de junho de 2027 e termina em 25 de julho, no Maracanã.
Até lá, o acompanhamento jornalístico deverá observar não apenas a preparação esportiva, mas quatro indicadores capazes de testar a narrativa econômica construída em torno do evento: turistas efetivamente recebidos, atividade econômica gerada, postos de trabalho mobilizados e arrecadação tributária.
É essa comparação, depois da Copa, que permitirá responder à pergunta que a projeção de R$ 8,8 bilhões ainda não pode resolver: quanto do potencial econômico estimado realmente se transformou em dinheiro circulando, renda, trabalho e receita pública no Brasil?
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Eliton Muniz — Editor-chefe do Cidade AC News




