O Brasil formou a geração mais escolarizada das favelas. Depois, veio o desemprego

⏱️ 4 min de leitura

NOTA DO EDITOR:  O relato abaixo descreve um dos maiores desafios brasileiros; na essência, um problema de política pública que só será resolvido com a articulação e o trabalho conjunto entre Estado e iniciativa privada. Não bastarão, de um lado, os poderes corretivos do Bolsa Família e do Pé de Meia; nem, do outro, tão somente o voluntarismo filantrópico.  E na longa lista de obstáculos para um País mais justo, talvez não haja urgência maior.

 

O Brasil investiu pesado em educação – e esqueceu de abrir a porta do mercado de trabalho. 

A escolaridade nas favelas cresceu 130% em uma geração, segundo uma pesquisa que acaba de ser feita pelo Data Favela, instituto de pesquisas focado nas periferias brasileiras. Por outro lado, o desemprego entre os millennials nas comunidades chegou a 10,3%, quase o dobro dos 5,5% da população geral na mesma faixa etária, segundo dados da PNAD Contínua do IBGE. 

O diploma conquistado se tornou uma promessa não cumprida. 

Millennials nas favelas têm 19% mais escolaridade que seus pares da geração anterior (a Geração X), mas enfrentam 151% mais desemprego, mostram os dados do Data Favela.

“Dois engenheiros com o mesmo desempenho acadêmico têm destinos completamente opostos dependendo da geração ou da origem familiar,” afirma Fillipi Nascimento, um pesquisador do Núcleo de Estudos Raciais do Insper e coautor de A Loteria do Nascimento: filha do porteiro termina universidade, mas não alcança filho do rico (Editora Jandaíra, 2025). (Compre aqui)

10 09 Fillipi Nascimento ok

“O filho do rico tem rede de contatos e capital inicial, enquanto o filho do pobre aceita o primeiro emprego que aparecer, fica sobrecarregado e perde competitividade,” disse Fillipi.

A Geração Z (hoje na faixa de 13 a 28 anos) repete a trajetória dos Millennials (29 a 44 anos), segundo a pesquisa. Ela elevou em 65% o nível de ensino, mas 32,5% trabalham na informalidade. A promessa da educação como elevador social travou no térreo.

Os números revelam uma transformação educacional silenciosa, mas contundente. Entre os Baby Boomers das favelas, 71% tinham baixa escolaridade (sem instrução ou fundamental incompleto). Na Geração Z, esse índice despencou para 20% – uma redução de 51 pontos percentuais em quatro décadas.

A proporção de jovens com ensino médio completo ou acima saltou de apenas 7% entre os Baby Boomers para 53% na Geração Z. 

No ensino superior, a evolução é mais modesta, mas significativa. Enquanto apenas 4% dos Baby Boomers das favelas chegaram à universidade, entre os jovens da Geração Z esse percentual sobe para 9% – mais que o dobro das gerações anteriores, ainda que com sinais de estagnação em relação aos Millennials.

Paradoxalmente, a geração mais escolarizada é também a mais desempregada. Apenas 30% dos jovens da Geração Z conseguem emprego com carteira assinada. O restante se divide entre informalidade (12%), desemprego (14%) e empreendedorismo por necessidade (26%).

Os números de empreendedorismo parecem positivos. Quase 40% dos Millennials nas favelas têm negócio próprio, aponta a pesquisa, mas 74% operam sem CNPJ ou MEI. 

“Romantizar o empreendedorismo periférico ignora que ele nasce da urgência de renda,” diz Nascimento. “Sem recursos ou tempo para se preparar, esse empreendedorismo não gera mobilidade social.”

O diploma não garante vaga porque o problema não está na qualificação. Está na estrutura do mercado, aponta o pesquisador do Insper. As melhores vagas circulam por indicação em redes fechadas; não aparecem no LinkedIn. Filho de executivo herda contatos estratégicos enquanto jovem periférico disputa vaga pública com milhares. 

Falta ao jovem da favela, ainda, o domínio dos códigos culturais corporativos que os filhos da classe média absorvem em casa. E há a discriminação racial documentada pelo Núcleo de Estudos Raciais do Insper: trabalhadores negros com a mesma escolaridade recebem 40% menos que brancos, enfrentam mais dificuldade na triagem de currículos e precisam provar competência repetidamente dentro das empresas.

Nascimento defende que uma medida isolada não resolve o problema. “Não existe panaceia. É necessário atacar múltiplas dimensões simultaneamente,” diz. 

Ele sugere como potenciais soluções as ações afirmativas no setor privado, estendendo o modelo de cotas das universidades para empresas, condições de permanência (transporte, creches, mentorias), qualificação estratégica voltada para progressão corporativa, não apenas cursos técnicos, e tributação progressiva sobre fortunas para financiar políticas de mobilidade.

Na ilustração acima, “Operários” (1933), de Tarsila do Amaral.

The post O Brasil formou a geração mais escolarizada das favelas. Depois, veio o desemprego appeared first on Brazil Journal.

Mais Lidas

Vagas de estágio do CIEE no Acre exigem cadastro atualizado

Estudantes regularmente matriculados podem consultar vagas de estágio do CIEE no Acre. Cada oportunidade possui critérios próprios de curso, cidade, jornada, bolsa e prazo de inscrição.

Estudantes do Acre podem concorrer a vagas de estágio na área administrativa ofertadas pelo CIEE

O Centro de Integração Empresa-Escola- CIEE está com vagas abertas de...

AD Rio Branco reúne mais de 1.500 participantes no 8º Encontro Estadual de Lideranças

A Assembleia de Deus Ministério Rio Branco realizou, entre 23 e 25 de julho, o 8º Encontro Estadual de Lideranças. Segundo a organização, mais de 1.500 participantes estiveram na programação, que terminou com a consagração de mais de cem obreiros.

Alysson Bestene anuncia revitalização do Parque Chico Mendes aos 30 anos, mas custo e cronograma ainda não foram divulgados

A Prefeitura de Rio Branco realizou uma vistoria técnica no Parque Ambiental Chico Mendes em 10 de julho de 2026 e anunciou melhorias no pavimento, na academia ao ar livre e nos brinquedos. O espaço completa 30 anos em 31 de julho e possui 57 hectares de floresta preservada, reunindo lazer, educação ambiental, pesquisa e conservação da fauna e da flora amazônicas. A gestão do prefeito Alysson Bestene também apresentou, em maio, o projeto de um novo mirante com 30 metros de altura, elevador panorâmico e espaço para café ou lanchonete. Apesar dos anúncios, ainda não foram divulgados o orçamento consolidado, a fonte dos recursos, o cronograma, a modalidade de contratação e a data prevista para início e conclusão das intervenções. A reportagem acompanhará a transformação da vistoria e dos projetos anunciados em obras contratadas, executadas e entregues.

Quanto custa preparar a Expoacre 2026? Prefeitura e Governo ainda não detalham o investimento total da operação

A preparação da Expoacre 2026 já mobiliza centenas de trabalhadores, máquinas e estrutura pública em Rio Branco. Embora a dimensão operacional tenha sido divulgada, informações fundamentais sobre o custo total da operação, contratos, origem dos recursos, patrocínios e estimativa oficial de retorno econômico ainda não foram detalhadas pelos órgãos responsáveis. A reportagem reúne as informações confirmadas, identifica os agentes públicos responsáveis e aponta quais dados permanecem pendentes de divulgação.

Últimas Notícias

Categorias populares