O Brasil formou a geração mais escolarizada das favelas. Depois, veio o desemprego

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NOTA DO EDITOR:  O relato abaixo descreve um dos maiores desafios brasileiros; na essência, um problema de política pública que só será resolvido com a articulação e o trabalho conjunto entre Estado e iniciativa privada. Não bastarão, de um lado, os poderes corretivos do Bolsa Família e do Pé de Meia; nem, do outro, tão somente o voluntarismo filantrópico.  E na longa lista de obstáculos para um País mais justo, talvez não haja urgência maior.

 

O Brasil investiu pesado em educação – e esqueceu de abrir a porta do mercado de trabalho. 

A escolaridade nas favelas cresceu 130% em uma geração, segundo uma pesquisa que acaba de ser feita pelo Data Favela, instituto de pesquisas focado nas periferias brasileiras. Por outro lado, o desemprego entre os millennials nas comunidades chegou a 10,3%, quase o dobro dos 5,5% da população geral na mesma faixa etária, segundo dados da PNAD Contínua do IBGE. 

O diploma conquistado se tornou uma promessa não cumprida. 

Millennials nas favelas têm 19% mais escolaridade que seus pares da geração anterior (a Geração X), mas enfrentam 151% mais desemprego, mostram os dados do Data Favela.

“Dois engenheiros com o mesmo desempenho acadêmico têm destinos completamente opostos dependendo da geração ou da origem familiar,” afirma Fillipi Nascimento, um pesquisador do Núcleo de Estudos Raciais do Insper e coautor de A Loteria do Nascimento: filha do porteiro termina universidade, mas não alcança filho do rico (Editora Jandaíra, 2025). (Compre aqui)

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“O filho do rico tem rede de contatos e capital inicial, enquanto o filho do pobre aceita o primeiro emprego que aparecer, fica sobrecarregado e perde competitividade,” disse Fillipi.

A Geração Z (hoje na faixa de 13 a 28 anos) repete a trajetória dos Millennials (29 a 44 anos), segundo a pesquisa. Ela elevou em 65% o nível de ensino, mas 32,5% trabalham na informalidade. A promessa da educação como elevador social travou no térreo.

Os números revelam uma transformação educacional silenciosa, mas contundente. Entre os Baby Boomers das favelas, 71% tinham baixa escolaridade (sem instrução ou fundamental incompleto). Na Geração Z, esse índice despencou para 20% – uma redução de 51 pontos percentuais em quatro décadas.

A proporção de jovens com ensino médio completo ou acima saltou de apenas 7% entre os Baby Boomers para 53% na Geração Z. 

No ensino superior, a evolução é mais modesta, mas significativa. Enquanto apenas 4% dos Baby Boomers das favelas chegaram à universidade, entre os jovens da Geração Z esse percentual sobe para 9% – mais que o dobro das gerações anteriores, ainda que com sinais de estagnação em relação aos Millennials.

Paradoxalmente, a geração mais escolarizada é também a mais desempregada. Apenas 30% dos jovens da Geração Z conseguem emprego com carteira assinada. O restante se divide entre informalidade (12%), desemprego (14%) e empreendedorismo por necessidade (26%).

Os números de empreendedorismo parecem positivos. Quase 40% dos Millennials nas favelas têm negócio próprio, aponta a pesquisa, mas 74% operam sem CNPJ ou MEI. 

“Romantizar o empreendedorismo periférico ignora que ele nasce da urgência de renda,” diz Nascimento. “Sem recursos ou tempo para se preparar, esse empreendedorismo não gera mobilidade social.”

O diploma não garante vaga porque o problema não está na qualificação. Está na estrutura do mercado, aponta o pesquisador do Insper. As melhores vagas circulam por indicação em redes fechadas; não aparecem no LinkedIn. Filho de executivo herda contatos estratégicos enquanto jovem periférico disputa vaga pública com milhares. 

Falta ao jovem da favela, ainda, o domínio dos códigos culturais corporativos que os filhos da classe média absorvem em casa. E há a discriminação racial documentada pelo Núcleo de Estudos Raciais do Insper: trabalhadores negros com a mesma escolaridade recebem 40% menos que brancos, enfrentam mais dificuldade na triagem de currículos e precisam provar competência repetidamente dentro das empresas.

Nascimento defende que uma medida isolada não resolve o problema. “Não existe panaceia. É necessário atacar múltiplas dimensões simultaneamente,” diz. 

Ele sugere como potenciais soluções as ações afirmativas no setor privado, estendendo o modelo de cotas das universidades para empresas, condições de permanência (transporte, creches, mentorias), qualificação estratégica voltada para progressão corporativa, não apenas cursos técnicos, e tributação progressiva sobre fortunas para financiar políticas de mobilidade.

Na ilustração acima, “Operários” (1933), de Tarsila do Amaral.

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