Hoje choveu no meu bairro

Francisca Chagas - Sobral
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Hoje choveu no meu bairro

Toda vez que chove aqui, a história se repete: as ruas alagam, o cheiro de poeira molhada sobe, o ar fica abafado. Lembro de Davi Friale, porque às vezes a chuva anuncia o frio que vem chegando. Mas, na maioria das vezes, ela só anuncia mais transtorno.

O esgoto não dá conta. A água não vai embora: fica. Fica nas calçadas, fica nas portas das casas, fica no nosso corpo quando precisamos atravessar a rua. Sempre nos mesmos pontos, sempre nos mesmos bairros esquecidos. Dias assim me fazem pedir chuva — porque sem ar-condicionado, ela é o único refresco. Mas logo me arrependo. O alívio dura minutos, o problema dura dias.

Tem dias que a cena parece até piada pronta: vizinhos com sacolas do Aramix nos pés, transformadas em “marca de sapato” da sobrevivência. É ridículo e triste ao mesmo tempo. É o nosso jeito de atravessar do outro lado sem se despedaçar por dentro.

Quando vejo essa água parada, lembro de tanta coisa. Lembro das vezes que bateram na minha porta pedindo voto, pedindo autorização pra colar adesivo na janela. Ano após ano, é sempre a mesma promessa. Passa eleição, passa mandato, e o bairro continua aqui, preso no mesmo retrato: lama, enchente, abandono.

Mas eu também lembro de outra coisa: da força que a gente tem de rir mesmo no meio do alagado, de se ajudar, de inventar um jeito de atravessar. É essa teimosia que faz acreditar que, um dia, vai melhorar. Porque tem que melhorar. Mesmo quando parece difícil demais acreditar.

Meu nome é Francisca Chagas.
Esse é o meu depoimento de hoje: um lamento cheio de esperança, um beijo molhado pra vocês que ainda pisam do tapete do carro direto pro asfalto seco.

 

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