Bioeconomia nos cocais: indústria sustentável do babaçu gera renda e qualidade de vida

⏱️ 6 min de leitura

“Quem diria que um dia nós íamos falar para o mundo?”. A pergunta é da quebradeira de coco babaçu Maria Leonarda Brandão, de 59 anos, ao relatar a luta diária com a quebra manual da matéria-prima que abastece o município de Coroatá (MA), localizado a 251 quilômetros de São Luís. Na região, rica em cocais, 32 famílias conheceram novas utilidades do babaçu após a iniciativa da Apoena, uma startup que compra o coco in natura das comunidades e trabalha a mecanização do produto, a fim de gerar renda, qualidade de vida às quebradeiras e maior produtividade.

Há seis anos, as quebradeiras do povoado Centro do Chico, em Coroatá, trocaram o trabalho árduo de quebra manual do babaçu pela coleta e venda do coco inteiro para a indústria. O resultado foi a otimização do serviço e a maior lucratividade.

A dificuldade nossa era muito grande no mato para passar o dia inteiro quebrando coco no sofrimento para ganhar muito pouco pelo quilo da amêndoa limpa. A gente só juntando e entregando o coco inteiro para a fábrica é muito melhor. Nós conseguimos produzir e ganhar mais.

Antônia Raimunda Honorato, quebradeira

Até quem trabalha na diária com outros serviços também se beneficia, agora, com a coleta do babaçu nos terrenos. “Aqui, raramente, aparece uma semana para ter duas, três diárias. E com essa renda dos cocos, no decorrer do mês, eu pego uma renda boa. Dá para pagar alguma conta, comprar algum alimento para dentro de casa, e desafogou mais”, contou o lavrador Antônio da Silva Silveira.

Bioeconomia nos cocais: indústria sustentável do babaçu gera renda e qualidade de vida
Márcia Werle, administradora com MBA em gestão, empresária e CEO da startup Apoena | Foto: Taciano Brito/Amazônia Vox

Da matéria-prima que antes se retirava apenas a amêndoa, hoje é possível aproveitar o epicarpo, uma fibra externa capaz de produzir adubo, carvão e outras fontes de energia, e o mesocarpo, que dá origem a produtos como farinha, cosméticos e biocombustíveis. Tem também o endocarpo, a terceira e mais dura camada do babaçu, que se transforma em carvão ativado, produto utilizado no tratamento de desconfortos abdominais e na filtração de água.

A indústria também produz o óleo e o tradicional azeite de coco babaçu a partir da quebra mecanizada. O projeto começou a partir da iniciativa da empresária Márcia Werle, que enxergou no coco babaçu um potencial de mercado e também fonte de renda para as comunidades tradicionais da Região dos Cocais, no Maranhão. “A pessoa que me apresentou o coco mostrou a nobreza dele e disse que daria para se produzir vários produtos a partir dele. Ela falou que desse coco, de onde só aproveitava 6%, que era a amêndoa”, disse Márcia.

A empresária conta que, sabendo que milhares de mulheres dependem dessa fonte de renda para criar e educar os filhos, resolveu fazer uma parceria para encontrar uma alternativa mecanizada que pudesse quebrar e separar esse coco. “A experiência que a gente tem trabalhando com as comunidades e conversando com elas, em um dia, elas conseguem coletar uma tonelada de coco, e isso representa uma boa renda”, acrescentou a empresária.

Bioeconomia nos cocais: indústria sustentável do babaçu gera renda e qualidade de vida
Coco babaçu fornece matéria-prima para diversos produtos | Foto: Taciano Brito/Amazônia Vox

Desde o início das operações, em 2019, a empresa já processou mais de 268 toneladas de coco babaçu. Por meio da extração da matéria-prima, a Apoena comercializa óleo corporal, óleo extravirgem, massa de babaçu, bebida Aroma da Floresta e o bioativo para diesel. A venda é feita principalmente por meio da internet. A startup participou dos programas de aceleração Inova Amazônia e Inova Cerrado, promovidos pelo Sebrae. Além disso, recebe soluções do Sebraetec e realiza a exposição dos produtos em feiras nacionais. Hoje, a empresa emprega 10 pessoas e 32 famílias fornecedoras do babaçu.

“Já trabalhamos o desenvolvimento de embalagens, onde eles puderam ter um especialista ajudando a desenvolver a arte e a identidade visual nas embalagens para os produtos, trabalho de acesso ao mercado, onde eles puderam expandir e ter acesso a investidores e novos mercados, para desenvolver todos os segmentos da empresa”, disse Stênio Pinheiro, gerente regional do Sebrae em Caxias (MA).

Bioeconomia nos cocais: indústria sustentável do babaçu gera renda e qualidade de vida
Maria Leonarda Brandão, quebradeira de coco babaçu, lavradora e atua na separação industrial das camadas do fruto na fábrica da Apoena | Foto: Taciano Brito/Amazônia Vox

O babaçu na COP30

O modelo de negócio construído no povoado Centro do Chico revela o alto potencial da bioeconomia no Maranhão. De acordo com a Embrapa, o estado tem cerca de 8 milhões de hectares de coco babaçu e é a unidade da federação que tem a maior população vivendo da extração do fruto. Com a exposição dos produtos extraídos dos cocais, as quebradeiras e a Apoena apresentarão para o mundo a riqueza do coco babaçu na COP30 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025), com o objetivo de buscar parcerias e incentivar a economia sustentável.

O produto de destaque da Apoena em exposição na COP30 será o bioativo para diesel, que é um aditivo natural desenvolvido a partir dos compostos do coco babaçu. Ele foi produzido para ser misturado ao óleo diesel e pode ser utilizado em operações industriais de baixo custo, como geradores e maquinário pesado. De origem vegetal e renovável, o produto é obtido por meio de um processo sustentável e de baixo impacto ambiental. Ele melhora o desempenho do diesel, promove maior eficiência na combustão, redução do consumo de combustível em até 15% e diminuição das emissões de CO2.

O produto é utilizado pela Apoena de forma experimental em fazendas. Nessa fase, estão sendo fechados os primeiros contratos de venda. “Vamos mostrar todo o potencial do babaçu e dos nossos produtos, em especial, o bioativo para diesel. É uma oportunidade para que as pessoas conheçam o nosso produto em que colocamos o babaçu como um bioativo da Amazônia, que faz a diferença na redução de mudanças climáticas”, ressaltou o diretor de produtos da Apoena, Marco Antônio Silva.

Bioeconomia nos cocais: indústria sustentável do babaçu gera renda e qualidade de vida
Foto: Taciano Brito/Amazônia Vox

Contribuição local 

A renda gerada pelo babaçu é vista com bons olhos em Coroatá. Com o destaque conquistado pela indústria do fruto, agora mecanizada, a expectativa é que o município colha bons resultados na economia. “Eu tenho certeza que todos esses produtos, a partir da comercialização, com a indústria sendo aqui, vai gerar renda, fomentando a economia, e isso é muito legal para trazer desenvolvimento para nossa cidade”, disse a secretária municipal de Indústria e Comércio, Jaciara Póvoa de Sousa.

A quebradeira de coco Maria Leonarda observa a importância da contribuição de toda a sociedade no incentivo à bioindústria. O trabalho começa com a preservação dos cocais e a proteção ao meio ambiente. “A gente está vendo, andando por esses lugares assim, que as coisas estão ficando mais difícil, porque a gente só vê o pessoal desmatando tudo. Eu espero que eles entendam que não é destruindo as coisas que vão para frente. Eles realmente têm que cuidar para a gente ter um futuro melhor”, disse.

Mais Lidas

Vagas de estágio do CIEE no Acre exigem cadastro atualizado

Estudantes regularmente matriculados podem consultar vagas de estágio do CIEE no Acre. Cada oportunidade possui critérios próprios de curso, cidade, jornada, bolsa e prazo de inscrição.

Estudantes do Acre podem concorrer a vagas de estágio na área administrativa ofertadas pelo CIEE

O Centro de Integração Empresa-Escola- CIEE está com vagas abertas de...

AD Rio Branco reúne mais de 1.500 participantes no 8º Encontro Estadual de Lideranças

A Assembleia de Deus Ministério Rio Branco realizou, entre 23 e 25 de julho, o 8º Encontro Estadual de Lideranças. Segundo a organização, mais de 1.500 participantes estiveram na programação, que terminou com a consagração de mais de cem obreiros.

Alysson Bestene anuncia revitalização do Parque Chico Mendes aos 30 anos, mas custo e cronograma ainda não foram divulgados

A Prefeitura de Rio Branco realizou uma vistoria técnica no Parque Ambiental Chico Mendes em 10 de julho de 2026 e anunciou melhorias no pavimento, na academia ao ar livre e nos brinquedos. O espaço completa 30 anos em 31 de julho e possui 57 hectares de floresta preservada, reunindo lazer, educação ambiental, pesquisa e conservação da fauna e da flora amazônicas. A gestão do prefeito Alysson Bestene também apresentou, em maio, o projeto de um novo mirante com 30 metros de altura, elevador panorâmico e espaço para café ou lanchonete. Apesar dos anúncios, ainda não foram divulgados o orçamento consolidado, a fonte dos recursos, o cronograma, a modalidade de contratação e a data prevista para início e conclusão das intervenções. A reportagem acompanhará a transformação da vistoria e dos projetos anunciados em obras contratadas, executadas e entregues.

Quanto custa preparar a Expoacre 2026? Prefeitura e Governo ainda não detalham o investimento total da operação

A preparação da Expoacre 2026 já mobiliza centenas de trabalhadores, máquinas e estrutura pública em Rio Branco. Embora a dimensão operacional tenha sido divulgada, informações fundamentais sobre o custo total da operação, contratos, origem dos recursos, patrocínios e estimativa oficial de retorno econômico ainda não foram detalhadas pelos órgãos responsáveis. A reportagem reúne as informações confirmadas, identifica os agentes públicos responsáveis e aponta quais dados permanecem pendentes de divulgação.

Últimas Notícias

Categorias populares