A imprensa é a voz de quem não está no parque

✍️ Eliton Muniz – Caboco das Manchetes
⏱️ 5 min de leitura

A imprensa não está na Expoacre apenas para registrar o brilho dos palcos. Está ali para construir pontes entre o que acontece no centro da festa e o que pulsa nas margens do estado. Representa aqueles que não conseguem passar pelas catracas — não por falta de vontade, mas por falta de estrutura, acesso ou amparo. A cada imagem compartilhada, a cada boletim transmitido, a imprensa leva a feira até quem não pôde estar: o seringueiro do Seringal Espalha, a mãe solo do Taquari que cuida de três filhos, o idoso acamado na Fundação Hospitalar, o jovem em depressão que assiste tudo do quarto, em silêncio, com o coração trancado.

É por esse povo invisível que o jornalismo existe. É por essas vozes que a cobertura da Expoacre faz diferença.
E, justamente por isso, incomoda — porque a imprensa crítica revela o que os releases não alcançam.

Quando um microfone é barrado, quem se cala é a periferia. Quando uma câmera é impedida de trabalhar, quem desaparece é a zona rural. Quando o acesso a bastidores é limitado a poucos, o que se impõe não é segurança, mas uma versão filtrada da realidade.

É preciso reconhecer: o problema não é institucional, mas estrutural. Não parte do governo estadual nem da Secretaria de Comunicação, que tem atuado para garantir acesso à imprensa — inclusive sendo, em alguns casos, igualmente barrada. O que está em jogo são critérios obscuros e decisões fragmentadas, muitas vezes tomadas por produções terceirizadas que não compreendem o papel da comunicação pública em eventos financiados com dinheiro público.

Quando a imprensa vira obstáculo: o caso Zezé di Camargo & Luciano

Na noite do show da dupla Zezé di Camargo & Luciano, profissionais da imprensa local foram tratados com descaso. Mesmo credenciados, foram impedidos de trabalhar e tiveram sua atuação barrada sob chuva, sem justificativa. A produção da atração limitou o acesso de forma arbitrária, atingindo inclusive a equipe da Secretaria de Comunicação do Estado. Em nota, a Secom esclareceu: “Todas as equipes foram barradas, inclusive a Secom”.

Esse episódio reforça a necessidade de protocolos claros, universais e respeitados por todas as produções terceirizadas. A ausência de critérios técnicos coloca em risco o próprio evento, cria ruídos institucionais e compromete o valor democrático que uma feira pública deve representar.

Novo caso: imprensa é desrespeitada durante show de Matheus & Kauan

Na madrugada desta quarta-feira (30), um novo episódio marcou a quinta noite da 50ª Expoacre. A imprensa foi impedida de realizar entrevistas com a dupla Matheus & Kauan, apesar da autorização anterior. O ponto crítico ocorreu quando o jornalista Zezinho Kennedy foi retirado à força da área próxima ao camarim, gerando protestos de seus colegas. Em sinal de repúdio, parte da imprensa vaiou a dupla ao vê-la se dirigir ao palco. Os artistas não se manifestaram.

Esse tipo de situação não representa o desejo do Governo do Estado — e muito menos da Secom, que tem buscado intermediar, garantir estrutura e diálogo com os veículos. Mas reforça a urgência de padronização, isonomia e transparência no acesso da imprensa.

O governador Gladson Cameli, presente no evento, lamentou o episódio e declarou: “Vou resolver isso”.

Expoacre 50 anos: privilégios para poucos, improviso para a maioria

A Expoacre chega aos seus 50 anos com uma contradição evidente. Enquanto celebra uma história de união entre campo e cidade, a feira enfrenta desafios de organização, improviso logístico e critérios pouco claros de acesso à comunicação. Ainda há veículos que transitam livremente enquanto outros — inclusive ligados ao próprio governo — são barrados ou deslocados para áreas sem estrutura.

A pergunta permanece: quem decide? Com base em quê?

A visita do governador e o gesto de aproximação

Na mesma noite, o governador Gladson Cameli percorreu estandes, falou com veículos de imprensa e reforçou sua posição:

“A Expoacre precisa ter cada vez mais participação do setor empresarial e menos caráter institucional. A imprensa é fundamental para divulgar essa linda festa e fortalecer o empreendedorismo local.”

Também defendeu a democracia e o papel da comunicação:

“A democracia se fortalece quando damos voz à população e à imprensa.”

É um gesto importante — que precisa agora ser transformado em diretrizes práticas, a fim de garantir que a visão democrática do governador seja compatível com as experiências reais da cobertura.

O que os 50 anos revelam?

A Expoacre completa cinco décadas entre fogos e filas. Mas por trás da cortina de luz, persistem ruídos e contradições. A feira, que já foi sinônimo de integração popular, hoje enfrenta dilemas de acesso, seletividade e improvisação. Quanto mais cresce em estrutura, mais precisa garantir alma democrática.

Estamos reivindicando não por vaidade jornalística, mas por quem não pôde vir:

  • Quem está no plantão de enfermagem;
  • Quem cuida de um parente em casa;
  • Quem vive no ramal onde o ônibus não passa;
  • Quem trabalha vendendo lanche na frente do parque, mas não consegue entrar;
  • Quem está na beira do Jordão, ouvindo tudo pelo rádio.

A imprensa é a ponte entre o evento e o Acre profundo. Entre o palco e os invisíveis.
Negar essa ponte é negar o povo que sustenta a própria feira.

Uma proposta para os próximos 50 anos

Talvez os próximos 50 anos da Expoacre possam começar com um gesto simples, mas decisivo:
garantir que todas as coberturas — grandes ou pequenas, oficiais ou independentes — tenham acesso igualitário, previsível e respeitado.

Isso começa com:

  • Um mapa técnico de cobertura;
  • Um protocolo público e auditável de credenciamento;
  • E um canal permanente de diálogo entre organização e imprensa.

Além disso, a entrega antecipada e padronizada dos estandes de imprensa, com critérios justos de localização, metragem e infraestrutura, pode garantir espaços adequados para entrevistas, recepção de autoridades, sinalização visual e climatização — como já ocorre com alguns segmentos favorecidos atualmente.
Essa prática deve se estender a todos, em nome da isonomia e da profissionalização da cobertura.

Porque sem imprensa, não há memória.
E sem memória, não há história.

🔊 Rádio Cidade AC ao vivo: www.radiocidadeac.com.br
📲 Apps: Apple Store | Android Store

Assinado por: Eliton Lobato Muniz – Cidade AC News – Rio Branco – Acre

Mais Lidas

O que está por trás do fim da escala 6×1 — e por que 4 horas viraram símbolo de dignidade no Brasil

Fim da escala 6x1 expõe desgaste estrutural do trabalhador brasileiro.

Escala 6×1 expõe desgaste do trabalhador e crise estrutural no Brasil

Escala 6x1 reacende debate sobre desgaste e dignidade do trabalhador.

Acre aparece entre os piores estados em qualidade de vida e reacende debate sobre saída de moradores

Acre aparece entre os estados com pior qualidade de vida do Brasil.

Quando a eficiência pública começa a perder legitimidade

Eficiência administrativa perde força quando as regras deixam de valer igualmente.

Por que está cada vez pior dirigir em Rio Branco?

Trânsito em Rio Branco revela pressão urbana, frota alta e deslocamentos mais difíceis.

Últimas Notícias

Categorias populares