O anúncio dos 25 classificados do concurso The Best of Canephora Brazil Edition 2026 aponta uma mudança grave na agricultura brasileira. A Associação Brasileira de Cafés Especiais conseguiu registrar esse momento por meio da fase nacional do concurso. Pela primeira vez, a referência de qualidade apresenta notas de sabores que passam bem longe das tradicionais regiões Sul e Sudeste. Todos (frisa-se: todos) os classificados que produzem cafés especiais são da região amazônica.
São 2 produtores do Acre; 18 de Rondônia e 5 do Amazonas. Esse registro é inédito. Todos são cafeicultores de base familiar. Uns com mais estrutura que outros; uns com maior ou menor apoio dos governos. Mas a lógica de conferir valor ao fato de ser pequeno aponta para uma percepção correta: a de que ser especial não passa pela obrigatoriedade de ser grande e com muito capital instalado na propriedade. O terroir tem uma rede de complexidade em que o capital é importante, mas não é vital. Traduzindo em bom português: para a produção de cafés especiais, ser pequeno é uma soma.
No Amazonas, o município cafeeiro por excelência é Apuí, que integra a calha do Rio Madeira. Faz divisa com Rondônia e Mato Grosso. Existe estimativa (com estudos ainda em andamento) de que a região de Apuí também tem “terras raras”. Em Rondônia, o município com maior número de cafeicultores classificados foi Cacoal, com seis produtores de cafés especiais. Aqui no Acre, a região do Vale do Alto Rio Acre se destaca na produção de cafés especiais. José Sebastião, produtor de Xapuri e ganhador do QualiCafé 2025, está entre os finalistas da fase nacional do The Best of Canephora. José Sebastião e a esposa Ilda produzem o café especial de melhor qualidade do Acre em uma área com menos de 3 hectares.
Outro exemplo acreano é o café Raízes da Floresta. Ele está entre os classificados. Produzido na Reserva Extrativista Chico Mendes, no município de Brasiléia, traz tatuada e torrada a marca da sustentabilidade, um conceito da mais alta valoração no mercado agrícola como um todo e no mercado cafeeiro em especial. Jorge Pereira da Silva Souza e a esposa Keyti Keti são os responsáveis por todo o processo de produção que acontece em uma área de menos de 5 hectares em uma área do antigo Seringal Guanabara, Colocação Palmeiras.
Produzir café exige um determinado perfil de agricultor. Produzir café especial exige um perfil ainda mais refinado. Este cafeicultor cultiva a ideia de que a qualidade do que o terroir vai oferecer depende de quantas vezes por dia as botas dele marcam presença no eito, no talhão ou linhas de café.
Mas por que esse cenário é significativo para a expansão da agricultura brasileira? Primeiro por uma questão factual. Não se tem referência de uma notícia do tipo: “Ibama registra área de desmatamento ilegal e queimadas para plantio de café”. Não há isso. Ao contrário: o café recompõe áreas degradadas; sequestra carbono da atmosfera. Segundo fator: um trabalho de parceria entre produtores agrícolas de Rondônia ainda nos anos 90 com pesquisadores da Embrapa geraram variedades clonais celebradas atualmente. Foi um trabalho em que o produtor agrícola foi fundamental.
O café, aos poucos, vai desenhando uma outra geografia econômica em novas fronteiras agrícolas na região amazônica. Com esse diferencial: de um consórcio entre o trabalho e o conhecimento do produtor com a rotina e os instrumentos da Ciência. Há também outros personagens importantes, como os Governos dos Estados e, mais recentemente, as cooperativas agrícolas, com o forte e articulado trabalho com impacto direto na renda do cafeicultor. Na Amazônia, a cafeicultura de base familiar está com essa forma, com esse cheiro e com esse sabor. E, pelos resultados, tem dado certo.
Conteúdo reproduzido originalmente em: AC24horas.





