O risco que construiu a América

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Quando as pessoas falam sobre o crash de 1929, elas frequentemente mencionam pecado, ganância, hubris, postura irracional. Falam das corretoras ilegais (as bucket shops), de manipulação por esquemas de stock pools, das longas fitas de papel com as cotações e das chamadas de margem.

No centro dessa indignação, está sempre a especulação.

A narrativa popular daquela época é a seguinte: o país perdeu a cabeça, apostou seu futuro na roleta de Wall Street e pagou o preço com sangue e com pessoas nas filas por pão. É uma boa história sobre moralidade, e ela não está errada.

Ainda assim, algo essencial está faltando: a especulação não destruiu a América. A especulação construiu a América.

Isso pode soar como uma heresia, especialmente porque acabamos de sair de recentes loucuras especulativas — o frenesi de negociação da GameStop, os absurdos nas criptomoedas e NFTs, os SPACs que deram errado — só para acabarmos no que pode ser uma das maiores em décadas, o boom da I.A.

Meu argumento não é que os investidores devem se abraçar aos caprichos mais recentes do mercado sem cautela ou salvaguardas. Mas se formos honestos, a especulação não é um bug no código econômico dos Estados Unidos. É uma peça crucial do seu motor. E sempre foi.

Passei quase uma década estudando o crash para meu novo livro, 1929: The Greatest Crash in Wall Street History — and How it Shattered a Nation.

Os homens daquela época (e eram principalmente homens) entendiam isso totalmente. Charles Mitchell, do National City Bank, o financista mais poderoso de sua era, acreditava que a democratização do investimento era essencial para o progresso nacional. John J. Raskob, que idealizou o Empire State Building, era famoso por dizer que todo americano poderia ficar rico investindo US$ 15 por semana em ações. Eles acreditavam que o capitalismo americano estava entrando em uma nova fase, impulsionada pelas massas.

Eles estavam errados sobre muitas coisas: o nível seguro de alavancagem; como os mercados se comportam sob estresse; o que acontece quando charlatães, incluindo alguns que administravam essas instituições, manipulam o sistema.

Mas eles não estavam errados sobre a importância da especulação.

A especulação é muitas vezes caricaturada como um jogo de azar. Mas na sua essência, ela é a soma de crença mais risco. É o ato de investir capital em um resultado altamente incerto, esperando uma recompensa.

Isso significa mais do que apenas comprar ações saídas de um meme. Envolve construir arranha-céus, financiar pesquisa & desenvolvimento, escrever livros, produzir filmes e, sim, construir ou apoiar startups que podem fracassar.

Não há inovação sem especulação. Não há veículos elétricos, não há vacinas contra a covid, não há OpenAI. Não há Amazon, Tesla, SpaceX ou Moderna. Não há ferrovias no século XIX ou internet no século XXI. Cada um desses projetos começou com uma aposta — que por vezes parecia absurda na sua época.

Isso não significa que a especulação seja sempre uma virtude. Ela pode ser imprudente. Ela pode ser fraudulenta. E quando muitas pessoas especulam com dinheiro emprestado ou em ambientes sem transparência, pode ser catastrófica. Foi o que aconteceu em 1929.

E é por isso que, depois de 1929, não abandonamos a especulação. Nós a regulamentamos. A criação da Securities and Exchange Commission, da Federal Deposit Insurance Corporation, as regras de margem, os requisitos de divulgação — não tinham a intenção de impedir que riscos fossem assumidos. Essas regras foram projetadas para tornar essa postura menos tóxica. E funcionaram em grande parte. (Embora, sim, ainda possam ser aprimoradas.) Na sequência, tivemos o “Século Americano”.

Risco e recompensa estão intimamente ligados. Assim como especulação e decepção. Você não consegue um sem o outro.

Os homens de 1929 tinham um otimismo ousado, às vezes perigoso. Eles acreditavam em construir, e queriam que todos participassem. Esse otimismo, por si só, não era o problema.

A lição de 1929 não é “não especule”. A lição é: Especule com responsabilidade.

Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times e está sendo republicado sob licença.

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