sexta-feira, 13 fevereiro, 2026

Quando a matemática da educação vira ficção

Historicamente, o Brasil já demonstrou um talento perverso para o desperdício quando o assunto é educação. Desde a redemocratização, o MEC passou por ciclos de expansão orçamentária, muitos dos quais foram elogiados por sua intenção e criticados por sua execução.

Redação - Cidade AC News - Eliton Muniz

Há contas que não se fecham nem mesmo com régua de engenheiro ou compasso de arquiteto. Quando a Controladoria-Geral da União aponta a existência de R$ 4,3 bilhões em distorções nas contas do Ministério da Educação, o que se vê não é apenas um problema contábil: é uma ferida aberta na alma institucional do país. Como explicar aos milhões de alunos da rede pública que faltam merenda, estrutura e professores, enquanto os cofres do próprio ministério exibem cifras descompensadas?

O relatório da CGU, divulgado com a frieza técnica dos números, revela uma tragédia silenciosa: compras sem comprovação de entrega, contratos com sobrepreço, repasses sem critérios transparentes e gastos incompatíveis com a finalidade educacional. Tudo isso sob a gestão de um ministério que, em tese, deveria ser o guardião da esperança nacional, pois é pela educação que se constroem nações sólidas e sociedades livres. O que se vê, no entanto, é o velho hábito brasileiro de tratar o erário como se fosse pasto privado.

Historicamente, o Brasil já demonstrou um talento perverso para o desperdício quando o assunto é educação. Desde a redemocratização, o MEC passou por ciclos de expansão orçamentária, muitos dos quais foram elogiados por sua intenção e criticados por sua execução. Em 2007, por exemplo, o orçamento do ministério ultrapassou os R$ 60 bilhões, mas ainda assim persistiam escolas de taipa e professores com salários aviltantes. Em 2024, com um orçamento que ronda os R$ 150 bilhões, encontrar distorções que beiram 3% desse total não é apenas uma “não conformidade”; é uma declaração de incompetência gerencial ou, pior, de dolo institucionalizado.

O mais alarmante, porém, é o silêncio moral que envolve escândalos dessa natureza. Não se vê indignação popular nas ruas, nem mobilização parlamentar à altura do dano revelado. Ao contrário: a cultura da impunidade parece já ter contaminado até mesmo o solo sagrado da política pública educacional. E tudo isso ocorre num país em que 55% das crianças do 2º ano não sabem ler adequadamente, conforme revelou a Avaliação Nacional da Alfabetização. Se a base está trincada, como sustentar o edifício social?

É como se estivéssemos ensinando às novas gerações que aprender a ler ou a somar é menos importante do que aprender a fraudar ou a omitir. E quando a lição que se transmite não é mais a da ética, mas a da esperteza, o que se planta é uma floresta de cinismo. Cada centavo desviado da educação é um tijolo arrancado do futuro. Cada distorção orçamentária não corrigida é um diploma rasgado antes mesmo de ser impresso.

A verdade é que um país que não cuida da integridade de seus investimentos em educação está, na prática, sabotando seu próprio destino. A Controladoria fez seu papel ao apontar o erro. Agora, cabe à sociedade cobrar a correção. Ou aceitaremos que R$ 4,3 bilhões evaporarem sem consequências seja só mais um capítulo da crônica brasileira do “ninguém viu, ninguém sabia”?

No tribunal da história, não há recurso possível para os que negligenciam os alicerces de um povo. Se não houver reação firme, técnica e moral, a educação continuará sendo a conta que o Brasil faz de cabeça, mas nunca resolve no papel. E a fatura virá – cara, injusta e irreversível.

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