sexta-feira, 13 fevereiro, 2026

Ciência que escuta: UFAC e UNIR criam projeto para combater desinformação em saúde indígena

"Desinformação vai muito além do conceito de fake news. Ela também se manifesta no silêncio, na omissão, no distanciamento entre academia e realidade", afirma o professor Allysson.

Eliton Muniz – Caboco das Manchetes

Tempo de leitura: 6 minutos

Derrubar muros e construir pontes entre a ciência e os povos tradicionais da Amazônia. É com esse propósito que pesquisadores da Universidade Federal de Rondônia (UNIR) e da Universidade Federal do Acre (UFAC) lideram um projeto que une pesquisa, inovação e compromisso social no combate à desinformação em saúde indígena.

Sob a coordenação dos doutores Allysson Martins (UNIR) e Aquinei Queirós (UFAC), a iniciativa conta com financiamento do CNPq e do Ministério da Saúde, e já opera com parcerias estratégicas com os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) da região. A proposta é clara: criar conteúdo científico acessível e validado diretamente pelas lideranças indígenas, respeitando as diversidades culturais, linguísticas e territoriais dos povos envolvidos.

“Desinformação vai muito além do conceito de fake news. Ela também se manifesta no silêncio, na omissão, no distanciamento entre academia e realidade”, afirma o professor Allysson. Segundo ele, os principais temas levantados pelos próprios indígenas incluem estigmas relacionados ao alcoolismo, saúde mental, doenças negligenciadas como tuberculose e malária, além das dificuldades enfrentadas pela população LGBTQIA+ indígena.

Já o professor Aquinei Queirós destaca que o embrião do projeto surgiu a partir de experiências anteriores com tradução científica sobre arboviroses. “Foi observando como a informação sobre dengue, zika e chikungunya chegava distorcida ou estereotipada às aldeias que compreendemos a urgência de tornar o conhecimento acessível”, explicou.

O projeto também conta com bolsistas, estudantes de mestrado e doutorado da turma especial indígena do Programa de Pós-Graduação em Letras, Linguagem e Identidade da UFAC. São eles os responsáveis por validar os materiais com base nas vivências e especificidades dos seus territórios. “Eles dizem pra gente: essa linguagem não funciona no meu povo. Isso aqui não é bem aceito. A partir daí, reformulamos tudo”, conta Queirós.

Entre os produtos previstos, estão vídeos, cards para redes sociais, cartilhas impressas e até um livro científico. O conteúdo será disponibilizado de forma aberta para que agentes de saúde e lideranças possam baixar, adaptar e distribuir conforme a necessidade local.

“A desinformação impacta diretamente as políticas públicas. Um boato sobre vacina circulando no WhatsApp pode custar uma vida, pode colapsar um sistema”, alerta Allysson. O projeto, que deve se estender até 2026, já apresentou dados ao Ministério da Saúde e trabalha com indicadores para medir o impacto da comunicação em saúde nos territórios.

Com forte atuação no Instagram por meio do perfil @lab.midi, o Laboratório MIDE já acumula mais de 14 mil seguidores e vem publicando desde janeiro de 2025 conteúdos voltados exclusivamente para a temática indígena, com dados sobre etnias, sistemas de saúde e direitos. Uma das publicações, por exemplo, detalha quem são os responsáveis pela saúde indígena no Brasil, e alcançou mais de 11 mil contas de forma orgânica.

Mais que um projeto acadêmico, trata-se de um movimento de reposicionamento da universidade diante de seus públicos. “A UFAC não pode continuar distante da realidade. Precisamos romper com a verticalidade e aprender com os saberes tradicionais. Só assim a ciência pode ser de fato libertadora”, finaliza Aquinei.


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