sexta-feira, 13 fevereiro, 2026

‘Nosferatu’ de Robert Eggers é obra-prima acessível e ambiciosa

IGOR GIELOW
FOLHAPRESS – Projeto pessoal que assombra Robert Eggers desde seus nove anos, “Nosferatu” é ao mesmo tempo o filme mais acessível e de maior ambição temática do diretor americano. Arriscando comparação com as aclamadas versões anteriores da mesma e surrada história, ele entrega uma obra-prima em seu quarto trabalho.

 

Se o original de 1922 deu à luz jogos de sombras que influenciaram toda a história do cinema, e a refilmagem de 1979 inseriu melancolia e perversão com lirismo, Eggers tratou de recriar o vampiro como uma ideia, um exercício sobre a maldade.

Tinha tudo para dar errado, mas o filme é um triunfo artístico, emergindo de suas trevas para um lugar no tríptico inaugurado pelos gênios alemães F.W. Murnau e Werner Herzog.

O enredo é permeado pelo questionamento feito pela mocinha, Ellen Hutter, vivida pela adequada Lily-Rose Depp, e pelo professor caçador de vampiros interpretado por um contido Willem Dafoe: o mal é algo exógeno ou originário da própria vítima?

A resposta se insinua desde a magistral sequência inicial, que Eggers filma como a obra muda original, apostando no expressionismo das caretas de Ellen. Isso se repete em suas convulsões, na angústia do marido, Thomas, o ótimo Nicholas Hoult, e no histrionismo do chefe dele, Knock, vivido por Simon McBurney.

O filme de 1922 rebatizou o conde Drácula como Orlock para evitar encrencas relacionados a direitos autorais -sem sucesso, já que um processo por plágio da viúva de Stoker quase condenou todas as cópias do longa à destruição.

Na época, o ator alemão Max Schreck rompeu com o visual sedutor do livro original, adotado também nos filmes posteriores. Seu vampiro era um espectro assustadiço com incisivos de rato e calva alvíssima.

A figura foi tão icônica que até um bom filme, “A Sombra do Vampiro”, de 2000, que recria as filmagens do “Nosferatu” de 1922, brinca com a ideia de que Schreck era mesmo um monstro -no longa, o conde é vivido por Dafoe. Klaus Kinski, o Nosferatu angustiado de 1979, respeitosamente emulou Schreck no quesito visual.

Já o novo conde Orlock é um feito à parte. Bill Skarsgard traz um vampiro inédito visualmente, que remete tanto à inspiração histórica de Stoker para o Drácula, um príncipe da Valáquia do século 15, quanto ao morto-vivo que é. Outra criação diabólica do ator, o palhaço Pennywise de “It – A Coisa”, parece quase simpático.

Nunca um Drácula ou congênere foi exposto, com direito a nu frontal, como um cadáver em putrefação. De quebra, se não é a primeira vez que o conde usa bigode, ele jamais foi tão expressivo.

Mas é na voz de Skarsgard que reside sua força. Ela ecoa na sala de cinema como se fosse de um Deus do Velho Testamento, onipresente e ameaçador -uma ideia. A pestilência dos ratos do conde, que viajam com ele em um navio rumo à Alemanha de 1838, parece misturar-se a seu hálito.

Se tudo isso sugere um “body horror”, é apenas parte da história. Eggers cria um belo mundo onírico, com uma gama de sutilezas que já se via nas suas mais herméticas obras anteriores, especialmente em “A Bruxa”, de 2015, sua estreia como diretor.

Os maneirismos estão lá para irritar os irritáveis, como no emprego de línguas originais. Em nome da bilheteria, contudo, ninguém fala alemão nessa Alemanha. A exemplo do que aconteceu com outras línguas mortas no último filme de Eggers, “O Homem do Norte” (2022), o dácio de Nosferatu acaba por dar lugar a um inglês ridículo.

Mais feliz é o “Easter egg” para os fãs da história de terror. A natureza satânica do vampiro é revelada por Dafoe, cujo professor aqui se chama Albin Von Franz. Ele invoca anjos e demônios de manuais ocultistas e diz que o monstro é um “solomonar”, aluno do Diabo em uma escola citada no livro de Stoker.

Até o nome do personagem é uma sacada: Albin, como Albin Grau, o produtor do “Nosferatu” de 1922 que deixou rastros de sua obsessão ocultista no filme.
Se tudo isso parece coisa de nerd, e é, o diretor satisfaz tanto esse espectador como os outros, transformando o cipoal esotérico em um mero pano de fundo. Já os delírios de Eggers, expostos em “O Farol”, de 2019, aparecem diluídos.

Isso dito, é um filme que vai frustrar quem está atrás de sustos fáceis, apesar de encharcado em sangue e vísceras. “Nosferatu” é lento e inclui alguns “subplots” desnecessários e personagens menores, como o casal amigo da família de Ellen Hutter, a mocinha.

Por outro lado, a inocência que Hoult já vendia em “Renfield”, lamentável spin-off recente de “Drácula”, é instrumental. Algumas cenas remetem, ainda, ao “Drácula” feito em 1992 por Francis Ford Coppola, uma grata surpresa, e o uso da sombra viva do vampiro ganha um plano interessante.

Há acenos aos novos tempos. O vampiro traz uma peste que se torna um pandemônio pandêmico, e a brutalidade patriarcal do século 19 é exposta no arco de Ellen, esmagada até literalmente por um medonho espartilho. Eggers, contudo, foge da armadilha de inserir elementos modernos incompatíveis com 1838.

Mas a chave do filme é a relação entre Ellen e Nosferatu, por mais evidentes que sejam as metáforas sobre a posição da mulher na sociedade. Tudo se funde num balé doentio, e é tentador pensar como seria se a atriz fosse a mais capaz Anya Taylor-Joy, para quem o papel foi escrito, mas Depp se vira bem.
De quebra, se o ator Klaus Kinski trouxe o binômio lascívia e repugnância ao vampiro no filme dirigido por Werner Herzog em 1979, Skarsgard leva o conceito a outro nível. Nosferatu se alimenta de forma violenta, reafirmando dada altura que sua obsessão nada tem a ver com o amor do monstro de Coppola: ele tem um terrível apetite.

NOSFERATU
– Avaliação Ótimo
– Quando Estreia qui. (2) nos cinemas
– Elenco Bill Skarsgad, Lily-Rose Depp, Nicholas Hoult, Willem Dafoe
– Produção Estados Unidos, 2024
– Direção Robert Eggers

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