sábado, 21 fevereiro, 2026

Bruno pode virar candidato e nós já estamos escrevendo o roteiro desse circo desalmado

Condenado por homicídio, Bruno voltou ao futebol, reapareceu nas manchetes e agora cogita disputar eleição. Enquanto fingimos espanto, alimentamos o mesmo sistema que transforma figuras execráveis em produto, debate em audiência e tragédia em palco. Entre um pênalti defendido e uma possível candidatura, o que se vende é a narrativa conveniente da “segunda chance”, embalada como superação e pronta para consumo eleitoral. E nós da imprensa, do público, junto dos patrocinadores do espetáculo, seguimos convertendo indignação em clique, crítica em engajamento, e brutalidade em capital simbólico.

Há algo de estruturalmente doente nesse processo que vai muito além de apenas ser sobre um indivíduo que cumpriu pena e agora testa os limites da própria reinserção pública. É sobre o ambiente que transforma esse movimento em entretenimento, estratégia, e possibilidade eleitoral concreta.

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Marcelo Theobald / Agência Globo
Eliza SamudioMarcelo Theobald / Agência Globo
Marcelo Theobald / Agência Globo
Eliza SamudioMarcelo Theobald / Agência Globo

Vivemos numa cultura política em que a caricatura virou regra. Onde a superficialidade é celebrada como autenticidade e o desprezo pela complexidade é vendido como coragem. Um cenário em que quanto mais ruidosa e controversa a figura, maior o potencial de atração. Isso é método. E nesse método, escândalo é ativo. Polêmica é combustível. Rejeição também engaja. O grotesco não afasta, magnetiza.

Antes que alguém reduza o debate a histeria punitivista, é preciso deixar claro: não se trata de defender atalhos autoritários. Não se trata de ignorar que existe um marco legal que estabelece punição e, após seu cumprimento, a devolução formal de direitos. Não se pode simplesmente decretar banimento eterno à margem das regras que regem o próprio Estado.

Mas reconhecer o que a lei prevê não significa oferecer absolvição moral automática. Não significa aplaudir tentativa de reconstrução de imagem como se estivéssemos diante de uma história edificante. Não significa aceitar que protagonismo público seja consequência natural do simples fato de ter cumprido pena. Ressocialização não é sinônimo de reconfiguração de reputação.

O problema começa quando a volta aos gramados, que nem deveria acontecer, vira manchete de primeira página informando com total imparcialidade e normalidade algo que simboliza um escárnio e a vitória da impunidade. Quando o nome volta a ecoar em arquibancada. Quando a defesa de um pênalti vira gatilho para trend topic. Quando o debate deixa de ser sobre memória e responsabilidade e passa a ser sobre performance e oportunidade.

E aí surge o passo seguinte: a política. Isso sem qualquer chamado cívico irresistível. Mas porque o palco já está montado. O personagem já voltou à cena. O público já está dividido. A polarização já está garantida. O algoritmo já entendeu que esse nome rende. E nós estamos ali, documentando cada ato.

Aqui entra a parte mais incômoda: a imprensa não é apenas observadora. É engrenagem. Critica, mas amplia. Reprova, mas destaca. Condena, mas publica foto, título, vídeo, corte, análise. A indignação também gera tráfego. A repulsa também monetiza.

Seguimos reproduzindo o nome acompanhado do antigo cargo esportivo, como se a profissão suavizasse a biografia criminal. Seguimos tratando cada movimento como capítulo de série. E depois nos espantamos com a possibilidade de capital político surgir dessa exposição contínua.

Somos parte da mosca varejeira que fingimos desprezar. Orbitamos a carniça enquanto denunciamos o cheiro. Porque o que é limpo, discreto, inspirador e honesto, raramente viraliza. O que viraliza é o choque. O incômodo. O absurdo.

E há algo ainda mais cruel nisso tudo: a vítima vira nota de rodapé. Contexto. Linha explicativa. A vida interrompida se reduz a parágrafo introdutório para a nova fase do protagonista. O centro da narrativa muda de lugar e quase ninguém percebe o deslocamento.

O discurso da “segunda chance” entra em cena como argumento moralmente confortável. Parece humano. Parece equilibrado. Parece civilizado. Mas raramente vem acompanhado de reflexão profunda sobre responsabilidade, arrependimento, reparação simbólica e limites éticos da exposição pública. Cumprir pena é uma coisa. Transformar isso em trampolim é outra.

E o mais duro de admitir: ele pode se eleger. Pode ter eleitor fiel. Pode construir base. Pode discursar sobre superação, injustiça, oportunidade. E encontrará audiência. Porque vivemos num ambiente onde o escândalo constante anestesia. Onde a linha do inaceitável se desloca centímetro por centímetro até virar paisagem. Esse circo não se sustenta sozinho. Ele precisa de plateia. Precisa de cobertura. Precisa de repercussão. Precisa de nós.

E se amanhã ele anunciar candidatura, haverá cobertura. Haverá análise de cenário. Haverá especialistas discutindo viabilidade eleitoral. Haverá enquete. Haverá debate. Haverá palco. Haverá microfone. E haverá quem vote.

O mais perturbador não é a possibilidade de vitória. É a naturalidade com que tudo isso acontece. Como se fosse apenas mais um capítulo de um país que se acostumou a transformar tragédia em entretenimento e controvérsia em estratégia de marketing. Nós criticamos o sistema político. Chamamos de circo. De teatro. De decadente. Mas esquecemos que ajudamos a vender ingresso.

Somos parte da engrenagem que transforma figuras execráveis em fenômenos midiáticos. Criticamos enquanto alimentamos. Repudiamos enquanto impulsionamos. Questionamos enquanto garantimos alcance.

É confortável apontar o dedo para o eleitor desinformado, para o sistema falido, para o oportunismo político. Mais difícil é admitir que também operamos dentro da lógica que recompensa o grotesco. O que é digno raramente viraliza. O que é honesto raramente vira trend. O que é profundo raramente monetiza. O escândalo, sim.

E assim seguimos. Entre a indignação performática e o pragmatismo editorial. Entre o choque moral e o contrato publicitário. Entre o discurso ético e a audiência em alta.

Nunca se tratou apenas de documentar como se fosse o retorno de um homem regenerado ao futebol com possibilidade de inserção na digníssima política. A grande questão aqui que vale a reflexão é o fato de que sempre há palco, sempre há luz, sempre há microfone, e sempre há quem esteja disposto a transformar qualquer coisa em produto. Inclusive a própria indignação. E amanhã, quando houver novo desdobramento, estaremos lá. Atualizando. Publicando. Repercutindo. Segue o baile.

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