Mais do que gerar renda, abrir o próprio negócio pode construir um caminho de autonomia, resgate da autoestima e poder de decisão sobre a própria vida para mulheres vítimas de relacionamentos abusivos e violência.
“Quando uma mulher conquista autonomia financeira, ela amplia sua capacidade de romper ciclos de violência, porque passa a ter mais condições concretas de decidir permanecer ou sair de uma relação abusiva”, reforça Georgia Nunes, gerente de Empreendedorismo Feminino, Diversidade e Inclusão do Sebrae Nacional.
Segundo ela, empreender também gera pertencimento social, rede de apoio e fortalecimento psicológico. “Esses são fatores fundamentais nesse processo de recomeço”, acrescenta.
Estudo da Universidade de Brasília (UnB) intitulado “Independência financeira e violência contra as mulheres: uma análise documental de relatórios institucionais brasileiros”, aponta que 61% das mulheres afirmam que a falta de renda própria impede a denúncia das agressões.
A pesquisa foi apresentada, ano passado, pela doutoranda em Psicologia Clínica e Cultura da Universidade de Brasília (UnB), Carolina Campos Afonso, durante o 10º Congresso Internacional de Direitos Humanos de Coimbra, em Portugal.

Caminhos de esperança
No município de Nossa Senhora do Livramento (MT), a empreendedora Érica Pereira ganhou forças, com apoio da filha de 8 anos, para buscar novos caminhos para sua vida, após o fim de um relacionamento abusivo. Com medo de ameaças, ela chegou a mudar de cidade com crises de pânico e ansiedade.
Quando voltou buscou ajuda do Centro de Referência Social (Cras) para recomeçar com ajuda do Bolsa Família e atendimento psicológico. Foi nessa época que o Sebrae abriu as portas do empreendedorismo para ela.
Fiz duas capacitações na área de beleza. Consegui um emprego como auxiliar em um salão e consegui montar um espaço dentro da minha casa. Hoje tenho uma renda melhor e consigo comprar coisas para minha filha. Antes não era possível.
Érica Pereira, empreendedora
Ao longo do caminho, Érica também encontrou um novo companheiro com quem compartilha seu sonho empreendedor. “Ele me ajudou a montar o salão. Comprou a cadeira do lavatório. Ele falou que vai me apoiar em tudo que me faça feliz”, comentou.
“No cotidiano do atendimento a empreendedoras, observamos histórias de mulheres que, ao iniciar um pequeno negócio, conseguem reorganizar a rotina, retomar projetos interrompidos e reconstruir perspectivas de futuro”, explica Georgia Nunes.

Negócios de impacto
Em Brasília (DF), o Instituto RevEllas oferece atendimento especializado e integrado a mulheres em situações de vulnerabilidade, com assessoria jurídica, acolhimento psicológico, consultoria parental e até mesmo apoio para registro de ocorrências e medidas protetivas sem precisar ir até a delegacia.
O trabalho surgiu da experiência da advogada e delegada aposentada Patrícia Bozolan que atuou por muitos anos na Delegacia da Mulher. A empreendedora conta que o local vai iniciar um atendimento para acompanhamento pós-divórcio com foco em reestruturação de carreira, finanças, autoestima, empoderamento.
“É fato que quando ocorre um divórcio, a mulher passa por um período de adequação financeira”, acrescenta Patrícia. Ela conta que muitas mulheres têm dificuldade para voltar ao mercado de trabalho e recomeçar a vida.
Atendo mulheres que até têm um diploma, mas nunca exerceram a profissão porque eram dedicadas exclusivamente para a família.
Patrícia Bozolan, advogada
Patrícia enxerga o empreendedorismo como um caminho natural para essas mulheres para obterem uma renda. “Atendemos uma maioria de mulheres na faixa etária de 45 a 55 anos. Dependendo das circunstâncias e o tempo longe da formação acadêmica dela, o retorno é por meio do empreendedorismo. Tenho uma cliente que começou a promover roupas de multimarcas e agora trabalha como influencer”, comenta.
De acordo com a gerente do Sebrae Nacional, alguns segmentos de negócios são mais viáveis para mulheres que rompem relações e possuem poucos recursos para começar a empreender. “Geralmente são negócios que aproveitam competências que a mulher já possui e exigem baixo investimento inicial em áreas como alimentação, beleza, moda, artesanato, serviços digitais, revenda, cuidados pessoais e prestação de pequenos serviços”, pontua.
“Hoje, inclusive, há muitas oportunidades no ambiente digital, que permitem começar de casa, com custo mais baixo”, finaliza Georgia.
No ano passado, Patrícia Bozolan foi vencedora do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, na categoria Pequenos Negócios. Com cinco anos de atuação, o instituto já atendeu 350 mulheres com serviços para romper ciclos de abuso que incluem diversos tipos de violência, como psicológica, patrimonial, física e até mesmo alienação parental e violência vicária, quando os filhos são usados para causar sofrimento.
“É um modelo de negócio com um propósito muito forte. Tentamos praticar valores acessíveis em um espaço privado porque queremos gerar um impacto social para as mulheres que nos procuram”, frisa Patrícia.





