sexta-feira, 13 fevereiro, 2026

Maior parte da costa fluminense é vulnerável às mudanças climáticas

Cerca de 60% da zona costeira do estado do Rio de Janeiro está sob níveis intermediários e altos de vulnerabilidade em relação aos efeitos das mudanças climáticas. É o que aponta um estudo recente do programa de Pós-Graduação em Dinâmicas dos Oceanos e da Terra, da Universidade Federal Fluminense (UFF), conduzido pelo doutorando Igor Henud e pelo professor Abílio Soares.Maior parte da costa fluminense é vulnerável às mudanças climáticas | Cidade AC News – Notícias do AcreMaior parte da costa fluminense é vulnerável às mudanças climáticas | Cidade AC News – Notícias do Acre

Publicado na revista acadêmica Internacional Journal of Disaster Risk Reduction, o artigo analisou os níveis de vulnerabilidade nessas regiões com base em variáveis ambientais e socioeconômicas, como condições espaciais, densidade populacional, infraestrutura logística e áreas prioritárias para a conservação. Os resultados demonstraram que a destruição dos ecossistemas litorâneos deixa as regiões expostas a erosões e inundações provenientes de fatores naturais, como as ondulações dos oceanos ou as tempestades.

Com as mudanças climáticas, a zona costeira pode se tornar cada vez mais suscetível a esses fenômenos, resultando em catástrofes a longo prazo. O pesquisador Igor Henud explica como os ecossistemas fornecem proteção:

“Boa parte das praias, até do Brasil, tinham uma faixa de areia muito maior. Essa faixa de areia, mesmo que não tenha uma vegetação, continua sendo um habitat natural. E qual é a função dessa faixa de areia, das dunas e da vegetação? É que, quando chega uma energia da onda, quando chega a força da onda, essa areia vai freando essa força. Então, no momento em que você tira parte da areia para construir um calçadão, você está tirando parte do habitat natural e, consequentemente, deixando aquela população exposta”.

Segundo o artigo, a região norte do estado e a Baixada Fluminense estão em níveis mais críticos em relação a outros locais. No norte, fatores como o relevo e as correntes marítimas, por exemplo, também influenciam na quantidade de ondas na região, gerando um risco até para onde há vegetação costeira:

“Se existe uma área que tem uma propensão a ser vulnerável, mas existe uma vegetação protegendo, essa vegetação é muito importante ser mantida, porque é ela que pode estar fazendo uma proteção para aquela linha de costa. Vou dar um exemplo: no norte do estado, tem uma restinga muito grande. Essa restinga é uma vegetação de praia, e lá é o pior cenário do estado do Rio de Janeiro inteiro. Então, uma região que já está ruim, se você retira a vegetação dessa região, ela se torna ainda pior. E com o advento das mudanças climáticas, esses danos ainda serão cada vez mais maiores”.

Ocupando uma área de 1.160 quilômetros, a zona costeira do Rio abriga 33 municípios e 83% de toda população do estado. Além disso, possui grande importância para a economia fluminense. O principal desafio, segundo o artigo, é pensar em soluções que não comprometam o desenvolvimento, ao mesmo tempo que protejam a população e os ecossistemas das ações climáticas.

Nesse sentido, os pesquisadores defendem as chamadas “soluções baseadas na natureza”, que utilizam o próprio meio ambiente como escudo. A pesquisa propõe ações como a restauração da vegetação original, o manejo adaptativo do território e a ampliação das áreas de preservação para reduzir os riscos. Igor Henud utiliza o exemplo dos manguezais:

“Se vem uma onda e ela encontra essa barreira, que é uma vegetação de mangue, ela vai perder a força, porque as raízes dos mangues freiam essa intensidade; os caules, as folhas também conseguem frear essa intensidade da onda, gerando uma proteção. Só que a gente sabe que o mangue é um berçário de inúmeras espécies de animais […], que eles têm valor econômico para a população local. Ou seja, quando a gente coloca a natureza, a gente traz uma série de benefícios, tanto ambientais quanto sociais, e não somente a proteção”.

O pesquisador defende que cada medida deve ser adotada de acordo com a especificidade da região:

“Quando a gente pensa em lugares populosos, a gente tem que pensar: regiões que possuem vegetação, elas precisam ser preservadas; e regiões onde a vegetação não está sendo ocupada, a gente pode fazer um processo de restauração pontual. Apesar da grande população, essa intervenção pode ser local, ela não precisa ser em grande escala”.

Até intervenções pontuais já reduzem consideravelmente os riscos para a população. Igor Henud utiliza o exemplo da especulação imobiliária para explicar as consequências da falta de planejamento:

“Está para sair um empreendimento de um resort. Na hora da construção desse resort, vai ter, provavelmente, uma migração de pessoas que vão trabalhar nessa construção, vão ter um salário, vão aumentar a sua renda. Só que, em algum momento, essa construção ela ser finalizada, e essa população, se não tiver um trabalho econômico, social, um desenvolvimento local, elas podem ficar marginalizadas e ocupar áreas que antes eram da vegetação”.

O artigo defende o mapeamento das regiões, para que haja a criação de mais políticas públicas voltadas à proteção ecológica e social.

*Sob supervisão de Fábio Cardoso

4:57

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