sábado, 14 março, 2026

A pulseira da vergonha: o peso político da tornozeleira em Bolsonaro

Quando o Estado precisa rastrear um ex-presidente é porque o país perdeu o controle (e talvez a vergonha)

Eliton Muniz – Caboco das Manchetes

Enquanto o Brasil dormia com calor de julho e promessas de um país em reconstrução, a Polícia Federal acordava Jair Bolsonaro para lhe colocar no tornozelo o símbolo definitivo de um sistema que insiste em ruir por dentro. A tornozeleira eletrônica que o ex-presidente agora carrega não é só medida cautelar — é um monumento à falência moral de uma elite que apostou no caos e perdeu para si mesma.


Análise interpretativa
A decisão do STF, autorizando busca, recolhimento e monitoramento 24 horas do homem que já foi chefe de Estado, é um passo duro — mas previsível. A postura de Bolsonaro nos últimos anos foi uma ode ao autoritarismo: desacato às instituições, flerte com golpe, desprezo pela liturgia do cargo. Agora, o cerco fecha como em um roteiro previsível: o “mito” se vê cercado por grades invisíveis que o impedem de tuitar, sair à noite ou encontrar seus aliados.

Mas essa não é apenas a história de um ex-presidente acuado. É a história de um país que deixou correr frouxo por tempo demais. As instituições demoraram, titubearam, cederam. Agora, com a opinião pública dividida, tentam reparar danos com tornozeleiras e toques de recolher — como se fosse possível devolver a ordem apenas regulando os passos de um homem.


O impacto invisível (mas real):
A grande tragédia institucional do Brasil é que a punição só chega quando a narrativa está em frangalhos. Não houve freio quando Bolsonaro incentivava motociatas em plena pandemia, nem quando espalhava dúvidas sobre urnas, nem mesmo quando circulava por embaixadas em busca de asilo velado. O Estado só reagiu quando a imagem externa começou a ferir o regime democrático por dentro. A tornozeleira que agora o persegue é mais um reflexo do atraso institucional do que propriamente da Justiça.

“É uma suprema humilhação”, disse Bolsonaro. E é mesmo. Mas para o país.



Se o Brasil quiser sobreviver politicamente, vai precisar aprender a agir antes da tornozeleira. Vai precisar desconfiar dos populismos que gritam pela pátria enquanto escondem os recibos. Vai precisar entender que nem todo autoritarismo chega de coturno — às vezes, vem de farda passada, bíblia na mão e dedo no Twitter.

E acima de tudo, vai ter que olhar para o tornozelo de Bolsonaro como se olhasse no espelho. Porque, no fundo, quem deixou isso acontecer fomos nós.


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