O emprego do tempo

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Trabalhar por conta própria tem a preferência de quase 60% dos brasileiros

Três semanas atrás, um bancário publicou uma carta aberta a seus empregadores no LinkedIn. Nela, relatava acúmulo de atividades, pressão para atingimento de metas “irreais” e ambiente tóxico. O desabafo teve mais de três mil likes e 400 comentários até o momento em que eu o consultava para este texto.

A repercussão ficou restrita ao post – e, possivelmente, ao futuro (duvidoso) de seu autor no cargo. Mas, a tomar como referência o que alguns estudos têm apontado, se o pior acontecer ao linkediner indignado — demissão por justa causa e nome no index corporativo da cidade onde reside, dificultando a recolocação —, sua vida não ficará material ou animicamente pior. Ao contrário: pode até melhorar.

Hoje, quase 40% dos brasileiros em idade economicamente ativa está na informalidade. E, entre motoristas e entregadores de apps, as ocupações mais visíveis, vigora uma relativa satisfação com a própria atividade, dada a autonomia de dias e horários, a possibilidade de estender ou encurtar a jornada quando necessário, a ausência de patrão e à obtenção de rendimentos superiores aos que perceberiam com carteira assinada.

“As pessoas hoje se referem à CLT com chacota, porque desejam flexibilidade”, disse uma podcaster ao presidente Lula poucos dias antes de pesquisa mostrar que “trabalhar por conta própria é melhor que ter emprego para 59% dos brasileiros” (Folha de S. Paulo, 20/06/25).

A informalização enfraquece o sentido de pertencimento e torna praticamente inexistente o vínculo pessoal no ambiente de trabalho. Impede a chamada consciência de classe e sua decorrência natural, a mobilização coletiva, pilar histórico das esquerdas. Do lado individual, priva o trabalhador de direitos como férias, 13º, Fundo de Garantia e, em alguns casos, seguro e contribuição previdenciária.

No entanto, tem lá seus ganhos individuais. Sabe-se que empresas podem facilmente se tornar ambientes hostis e ansiogênicos — e o desabafo do bancário está aí para provar. A sensação de não ter a quem prestar contas, a não ser a si mesmo, pode funcionar como atenuante para jornadas de mais de 44 horas semanais, como é frequente entre RPAs e MEIs.

A informalidade tem um quê de autoexploração, como gostam de acusar seus críticos? Depende de como se enxerga. “(…) a ideia de que todo mundo precisa ter um emprego só surgiu com a Revolução Industrial”, e, nos Estados Unidos, tornou-se especialmente acentuada durante a Grande Depressão. Naquele período, “[o]s trabalhadores foram instruídos a considerar o emprego, e não o tempo livre, como o seu direito de cidadãos” (trecho do livro Dinheiro e vida: mude sua relação com o dinheiro e obtenha independência financeira, de Joe Dominguez e Vicki Robin, página 287).

Menos romântico e mais sintonizado com a realidade brasileira, o sociólogo Renato Meirelles lembra que “o tempo é o que vale dinheiro” e “pode ser rentabilizado para sustentar a família”. E, às vezes, ser autônomo é a melhor forma de empregá-lo.

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